quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Necessidade

Construir.
Stay, de Ken Wong, retirado do link abaixo:
http://www.kenart.net/portfolio/moonlight.htm
Isso: construir, montar, criar. Claro, com as entrelinhas. Construir sem desconstruir é impossível. Só assim o corpo muda. Tem gente que não muda. Por opção continuam sendo o que acreditam ser. Só esmagando uma barata, algo se cria. Não é um processo simples. Nada simples. Só com o sangue branco de barata se espalhando pelo chão a gente muda. O coração palpita, o corpo treme, por que está em metamorfose. Há apreensão, há medo.
O corpo na sacada fala sem se mexer. Precisa de algo. A barata mexendo as pernas o faz perceber. O calor maçante, o ar ofegante. Sim, a barata é o que resta. Ninguém ao redor, ninguém em nenhuma direção. Nenhuma força direcionando em uma direção específica. Estou sozinho. Sozinho fisicamente agora também. Essência e corpo. Sozinhos por um tempo. Isso preenche. Preenche o quarto, o hotel, a cidade e o campo no horizonte.
Paisagem de vegetação rala ao longe. Seca. Meu corpo pode secar agora. Sem mais nada. Músculos podem enrijecer, ir à poeira. Estou indo, estou chegando.
Quando chega a beira. A beira do que podia ter acabado, na beira do tempo que passou, o corpo congela. Os pés pisam em alguns galhos. Lágrimas caem ao chão. A dúvida brota verde. Esperamos ela morrer, ela não morre sozinha, esmago com os pés, brotos verdes molhados de lágrima.
Se eu cair, alguém irá me segurar? Não... estou sozinho... vou poder cair. Me deixar cair é importante. Quando se ama alguém, devemos deixá-lo cair. Então caio. O ar passa por mim. As lágrimas voam junto com o vento, as cinzas do corpo, o vento da queda leva tudo, sentimentos também. Fico vazio. Casco de barata. Seco de morte. Caído na cama.
Logo, pousa uma esperança no vidro sujo. Pernas longas, verdes, antenas vivas. Está lá. Fora do quarto. Os olhos veem, olham o mundo atrás dela e ela voa.



md.