sábado, 27 de julho de 2013

Literatura para os pobres, loucos e coloridos


Descobri homens afogados, semidevorados pela pedra e, nos rochedos de cima, outros homens que lutavam para afundá-los.” Antonin Artaud. Escritos de um louco.
Há em Uruguaiana, cidade fronteira com a Argentina, tomada de campos duros e vento seco, um número considerável de escritores. Ao menos assim dizem os moradores do lugar. O povo desta cidade, tão comum e calma quanto Oran, conhece seus escritores, pois há nesta localidade um costume bem marcante: publicar textos de alguns desses escritores em jornais locais, já que a mídia impressa ainda é muito útil e popular em Uruguaiana, por motivos óbvios já descritos (campos e ventos, etc).
Foi de modo acidental que acabei cruzando com um desses jornais, com um desses escritores e, por conseguinte, com um desses textos que a imprensa local, muito ética e preocupada com a qualidade da leitura dos cidadãos, costuma publicar. O que eu queria mesmo era comprar cigarros, os quais fumo por desavergonhada angústia tangente de morte, com a qual me nego a lutar, por fraqueza humana e nada mais. Acontecia de estar acompanhado de um grande amigo que, ao apontar para um dos jornais populares na estante da loja de conveniências, citou-me o título de um texto que havia lido naquele calhamaço confuso de impressão, cuja capa mais parecia uma casa burguesa ao estilo de Balzac. Como me encontro pertencente à ordem cidadã da mesma cidade, não pude deixar de ficar curioso e pedi a meu amigo que comprasse o jornal, já que dinheiro também não tenho, sendo que meu companheiro pagou também pelos meus cigarros: dividas que acumulo e que são impagáveis, pois são empréstimos de carinho e humanidade inquestionáveis. Foram minhas pobrezas, a humana e a econômica, que me obrigaram a ler o texto que falava exatamente disto: a pobreza.
Tratava-se de uma crônica sobre as cores dos pobres. Vale lembrarmos que as crônicas são obras literárias, cheias do charme próprio que o hibridismo contemporâneo vestiu glamourosamente. Por ser um tipo de texto que bem cabe aos jornais, e por isso também é de toda gente, a crônica carrega consigo, enquanto texto, um dever de obediência ao humano e à vida que, caso se perca, pode gerar sérios problemas para quem lê. Problemas situados onde os agenciamentos entre a subjetividade, o real, o ficcional, significante e significado se tornam impossibilitados, e isso é retirar de quem lê a sua dignidade.
Nesta crônica em especial, um narrador  em primeira pessoa conta uma viagem que fez, na qual teve de pegar um ônibus e, por conta disso, pode observar as paisagens com precisão, coisa que não poderia fazer de dentro de um avião. Fica claro que o narrador considera-se burguês, sentindo-se, no contexto específico de escrita, na necessidade de frisar ter feito uma viagem de avião, coisa muito incomum entre os pobres do Brasil, ainda mais incomum para os de Uruguaiana. Pensamos, eu e meu amigo, que talvez o narrador dissesse isso para conferir um certo poder de classe sobre si mesmo, o que em Uruguaiana parece valer muito. O texto se escorre dando a impressão de ser uma epifania vivida por uma princesa que, do alto de sua torre, sai a planar sobre as favelas e cortiços, observando assim a plebe, as mulheres a estender roupa, casais a brigar na rua, as casas e roupas conseguidas a muito custo, sem o luxo das escolhas, tal qual insiste a ditadura dos modismos. Meu estômago sentiu um mal-estar, mais por ser posto a prova, quando na crônica (texto que deve ser literatura), leio uma opinião: a de que há mais poesia na pobreza do que na riqueza, já que os pobres tem o colorido das roupas, as doenças que os unem, assim como suas dores e seus medos.
Compreensível colocação. Explica-se. Uruguaiana é uma cidade como qualquer outra, mas cabe dizer que todo aquele que quiser conhecê-la, deve obrigatoriamente visitar o cemitério da cidade. O cemitério de Uruguaiana mostra exatamente o que diz a crônica que li com meu amigo. Ao pisarmos este terreno cheio de histórias caladas, somos engolidos por enormes “casas” que se pretendem aristocráticas. Um amontoado de dinheiro gasto para a permanência dos nomes dos poderosos. Palacetes para os corpos que se acreditavam mais valiosos em vida, até por que “a riqueza não tem cheiro de terra”, como estava escrito no texto que li com meu amigo. Talvez por isso precise se vestir bem e se proteger em paredes enfeitadas de arabescos insossos e cores cariadas, mesmo depois da morte. Logo atrás deste “bairro nobre”, o cemitério traz as lápides dos pobres. Túmulos coloridos, onde as flores de plástico reforçam os tons de grito, a existirem mesmo na morte de forma incomodativa, lembrando sempre aos ditos “ricos” que a pobreza é colorida. E é. Colorida e pesada como um elefante no bolso. Nada contra os ricos, claro, todo pobre queria ser um. Assim não precisariam gritar tanto sem ao menos serem ouvidos, podendo de igual forma oprimir outros pobres, já que parece que este ciclo não terá um fim.
Acendi um cigarro após ter lido todo o texto, e me pus a pensar nos pobres e nas cores. Não me incomoda dizer que a pobreza é colorida. Foi a conclusão a que cheguei antes de sentir fome e decidir jantar uma colorida sopa, bem quente e nutritiva, comida de pobre. Acho que me abalou uma certa tristeza por esta escrita que foi publicada assim no jornal da cidade. Talvez onde este narrador diz que não desejaria viver como os pobres, mas que os admira. Talvez aí a grande dor. Uma tristeza por não ser uma piada de mau gosto. Pensei que talvez a literatura esteja morrendo e não importa para mim o fato de eu não ser um escritor, já que não faria diferença em um mundo sem homens, sem mulheres, sem bicho.
Por que não ser pobre, afinal? Sair do território habitado pelo ilusório, ser levado pelo cego mascando chicletes como fez Ana em um conto de Clarice, e o fez com tanto Amor que era quase tudo. Bem, Clarice Lispector já havia dito: "o amor é antes a miséria". Foi a falta de amor desta crônica que me matou por um momento. Todo um escrito publicado e embalado, para ser lido e aceito como verdade subjetiva pelos leitores deste sítio onde moramos eu e outros cidadãos, em sua maioria, pobres.
Pensei nisso tudo após ter lido esta crônica no jornal, e me vi a morrer nas mãos, depois nos ombros mansos, depois no peito duro. Desfaleceu-se a musculatura de meu corpo. Sentei para comer em silêncio, em um banco do lado de fora de minha toca de rato. As palavras do texto a me inchar a cabeça. “Despudoradamente”, sim, sentei para comer minha colorida sopa sem pudor por ser pobre e exibir o meu jantar. Enquanto eu comia, vi crianças brincando na rua gelada, fazendo barulho. Talvez a pobreza não seja apenas colorida, talvez ela seja um rizoma incomodo, ainda mais quando produz e quando cria coisas para o mundo. Foi quando percebi que a crônica que li não pode ser literatura. A literatura não tem a ver com um mundo particular (papai-mamãe): príncipes e princesas voadores, a salvar o mundo da miséria por dizer que ela é bela. Para escrever é preciso saber que não existe um enunciado individual. Este texto, publicado com descuido perigoso, não conectou nada, não conjugou, não continuará, não é devir. É ser estratificado que não flui com o mundo.
Ao final, a crônica lida foi útil à lucidez. A literatura deve valer a pena e pode ser tentada, causada, até menos pelos pobres. Terminei de comer e decidi escrever este texto cheio de clichês que tenta mostrar que tenho alguma leitura. E tenho. Os ditos “ricos”, ou os que assim se denominam, estufando o peito poderoso, cometeram um erro grave: permitiram que eu lesse. E tenho direito ao clichê, afinal, sou pobre. Tiraram-me do afogamento e fiquei ali, em meio à peste. A peste que é também cheia de cores, a cor da ferida e a cor do sangue, coisa de pobre. E é bom que tenham cuidado. Agora sou um doido, tenho os olhos coloridos...
Por O. Z.