domingo, 21 de abril de 2013

The Cure - Latin American Tour 2013

FOTO DE DIÓBER LUCAS - FONTE: FACEBOOK. LINK: DIÓBER LUCAS. facebook


EL CONCIERTO DE LA CURA...

Resolvi escrever este texto hoje, por ser 21 de abril, aniversário de Robert Smith. Com certeza este senhor está de parabéns, pois seu trabalho como artista não é coisa pouca, como pude sentir ao ver a performance ao vivo do The Cure. Começa assim: de repente um arranjo musical, que de extraordinário enquanto técnica ou virtuosidade, não parece ter muita coisa, mas que como um todo, em suas linhas, abre o conjunto música/poesia que se propaga: desce dos céus ao coração de quem ouve... Estrelas se acendem em uma tela escura, como se significassem cada nota desta canção-poesia, que é simples, é uma Plainsong - canção óbvia, como se assim devesse ser o amor em sua complexidade - Expõe-se um diálogo, narrativa poética que só o timbre de Robert Smith consegue alcançar: um homem e uma mulher falam de seu amor, com a maturidade de um amor que sabe ser o fim de tudo, o começo de tudo, o qual sabe compreender a dor do outro e ser também a miséria do outro, mas que reconhece também o sublime em um simples sorriso.  Sorriso que aplaca todas as dores, o escuro de um dia de chuva, o silêncio de morte, porque este sorrir eleva o ser amado ao topo do mundo, que é também um abismo.  Foi assim que o Cure abriu o show em Buenos Aires. Para quem entende um pouquinho só do idioma, uma única música de Robert Smith pode conter o tanto que se pode sentir, ou mais. Sei que existe um livro sobre o The Cure, escrito em francês, que tem como título algo do tipo “Órfãos do Romantismo”.  Talvez o sejam... Mas até então, é uma obra bastante contemporânea, pois a forma como o amor entrecruza o simbólico, o imaginário e o real nas músicas do Cure, está muito mais para os intervalos de vazio, para o todo e para a diferença absoluta na relação entre os seres, expondo assim as barreiras que precisam ser transpostas.  Logo, as músicas vão efetuando seu efeito enquanto obras para uma coletividade. Um mapa de subjetividades que se constrói através de fluxos de desejo, que rompe com as estruturas através de ambiguidades latentes, em músicas como Inbetween Days e Push, ou muitas outras.  Não há como não se sentir dentro da música, ou o inverso... E vamos da criança ao animal humano, do eu ao todo, é nesse continnum de intensidades e de rupturas que se dá o evento musical do Cure.

Eu pude sentir a força dessa obra e sempre serei grata por ter ido ao show do The Cure – el concierto de La Cura – como dizem alguns fãs hispânicos. E dizem bem, é sempre bom lembrar o nome da banda por seu propósito: a cura. Quando Robert Smith cantou Want – “no tanto que eu quero/ eu sei que bem lá no fundo/ Eu nunca terei mais esperança ou mais tempo”-, meu coração se abriu numa compreensão que era de todos: a do nosso espaço não cultivado, onde queremos, desejamos. Ali, cantando junto, pude sentir algo vivo, mas para o qual eu não teria um nome. Liberdade? Talvez. Ou consciência de não a ter? Não sei, não saberia explicar. Sei que a banda, e principalmente, Robert Smith, por sua obra, são muito importantes para mim. São como erva daninha que impõe seu crescimento transformador, num mundo de plantações inúteis e versos de um encantamento oco, que nada deixam transbordar.

Além disso, ainda há a graciosidade do artista: a banda tocou com perfeição. Robert Smith cantou com perfeição. Este adjetivo era o único possível. Houve momentos em que era audível, aqui e alí, as pessoas dizendo “perfeito”, “perfecto”. Lembro-me que o público delirou com Fight, pela energia com que foi tocada pela banda, pela voz de Robert Smith e sua força interpretativa, que expõe nessa música a necessidade de lutar contra aquilo que nos confina e nos aprisiona, tirando-nos a força... A agitação da coletividade, nesse momento, gerou um grande barulho, um caos generalizado de alegria e de libertação. O barulho era imenso e, quando a música acabou, Robert largou um pouco guitarra, logo, voltou e disse: “this will shut you up!” – com esse gracejo, fez surgir Dressing Up. Música de uma expressão longilínea, amorfa, quase impossível de cantar junto, onde o vocal do Sr. Smith se derrama como corpo preguiçoso, que não quer levantar da cama, mas que se veste para “beijar”, “para ser isso tudo”, “para dançar toda semana” e depois, volta novamente para a cama, para o corpo de êxtase que o aguarda. Essa graciosidade, essa beleza, é o que há de melhor na obra desta banda, até porque, ninguém imagina que uma banda de rock, ou seja lá como o definem (eu prefiro considerar como híbrida) possua tais traços estéticos. Para dar continuidade a essa beleza, seguiu-se com a “jazzy” The Lovecats. A emoção era tanta, que o público transbordava em carinho, pelo menos é o que eu pude notar no rosto dos que estavam ao meu redor.

E para encerrar: o êxtase! Lágrimas não faltaram ao meu redor, confesso que eu também contribuí. Algumas eram de nostalgia, outras de compreensão, outras de comunhão, outras eram um complexo de todas as emoções possíveis. Durante mais de três horas sem beber, sem comer, em pé, sentindo frio e calor, sendo esmagada, empurrada, erguida por meu amigo, eu nada sentia que me incomodasse, que me tirasse daquele sentimento quase primitivo de pertencimento, de estar cantando também a mim mesma.  A entrega era total e posso dizer que saí extasiada, dilacerada, as pernas bambas, um tremor manso no corpo, o coração em paz. O mundo havia desaparecido, para ressurgir sem que pudesse em nada abalar minha gostosa exaustão. Depois de voltar para o hostel onde estávamos hospedados, de conversarmos um pouco, o sono me veio calmo e pleno, cheio de coisas boas. Acredito que muitos dos que foram, também se sentiram completos ao final do show, e que, como eu, não esquecerão esse mágico momento. 

Por sally Seton.


Neste 21 de abril - Feliz aniversário Robert Smith!



SET LIST - BUENOS AIRES:
 Plainsong, Pictures of You, Lullaby, High, The End of the World, Lovesong, Push, Inbetween Days, Just Like Heaven, From the Edge of the Deep Green Sea, Sleep When I'm Dead, Play For Today, A Forest, Primary, Bananafishbones, Charlotte Sometimes, The Walk, Mint Car, Friday I'm In Love, Doing the Unstuck, Trust, Want, Fascination Street, Hungry Ghost, Wrong Number, One Hundred Years, Disintegration

1st encore: The Kiss, If Only Tonight We Could Sleep, Fight

2nd encore: Dressing Up, The Lovecats, The Caterpillar, Close To Me, Hot Hot Hot, Let's Go To Bed, Why Can't I Be You?, Boys Don't Cry, 10:15 Saturday Night, Killing An Arab.

PARA CURTIR A MÚSICA DE ABERTURA: PLAINSONG
A QUALIDADE NESTE VÍDEO ESTÁ ÓTIMA, MAS PARA QUEM QUISER VER IMAGENS DO SHOW A QUE ME REFIRO,  BASTA PROCURAR PLAINSONG LIVE - BUENOS AIRES 2013 NO YOUTUBE...