terça-feira, 5 de março de 2013

O texto veio p'ro blog com atraso, mas veio...


Volta às aulas: professores &  Livros


Lembro-me muito bem dos meus tempos de escola, especialmente da primeira Feira do Livro da qual participei. Eu estava na então chamada segunda série do ensino primário e a professora nos avisou da Feira do Livro da Escola. A emoção da professora nos contagiou, até porque, ela nos contava histórias todas as semanas, e também as encenava para nós, com figurino e tudo! O dia da Feira não nos desapontou, e ainda tivemos a presença de escritores, um deles, um poeta que escrevia, também, para crianças, autografou meu caderno e deu-me um de seus livros. Beijou as crianças e cantou para elas. Nunca senti tão grande fascínio como o que aquele homem despertou em mim, falando-nos sobre a vida como se fosse outra coisa, como se a escola fosse nossa nave para fazer do mundo o que quiséssemos. Eu nem mesmo compreendia todas as palavras que ele utilizava e, quanto mais estranhas me pareciam, mais assaltavam minha curiosidade. A professora estava preparada, percebeu nossas dúvidas e fez uma lista das palavras que não conhecíamos, e lá, na segunda série, usamos pela primeira vez um dicionário. Foi algo solene! Descobrimos que os sons das letras podiam ser escritos, como se a língua guardasse segredos para que nós desvendássemos. Os grupos (sim, sempre trabalhávamos em grupos) estavam concentradíssimos, e burlávamos a professora, indo atrás de palavras que não estavam na lista, afinal, aquele livro de palavras estáticas nos enchia de ideias, tal era nossa imaginação! A culpa era toda dela e, naquele ano, lemos muito, encenamos e escrevemos nossa pequena obra literária, falando sobre a escola e sobre nossos sonhos.
Esta lembrança me sacudiu novamente quando ouvi de uma amiga há pouco tempo que alguém reclamou de seus textos, dizendo que eram muito bons, mas que podiam ser “curtinhos”, por que ninguém lê textos muito longos. Tenho de repetir: “ninguém lê textos muito longos”. Ninguém? – Não sei dizer quão inexplicável foi o turbilhão de sentimentos dentro de mim, entre raiva, indignação, perplexidade, angústia e decepção, enfim... – Mas a primeira coisa que pensei foi na escola. Acredito que aprendemos a amar a compreensão das coisas na escola, com nossos colegas e professores. Aquela professora que eu tive era singular e fez toda diferença. Hoje, vejo nas escolas professores que não leem. Não faltam desculpas: não há tempo, não sou professor de literatura, minha disciplina nada tem a ver com isso (para começar, o pronome “meu” e o substantivo “disciplina” não deveriam mais ser usados por professores), acho perda de tempo, e aí vai... – Mas chego à conclusão de que um professor que não tem como prática a leitura, especialmente a literária, vai ter dificuldades em despertar nos seus alunos a capacidade criativa, o gosto por aprender o mundo, seja deduzindo e, até, calculando, na busca de solução para problemas vividos a cada instante. Isto porque ler é fundamental para que possamos nos relacionar uns com os outros, com o mundo e com aquilo que nos preenche e faz de nós o que somos, ou nos possibilita estarmos no mundo do jeito que estamos. Ler permite a mudança, a transformação humana em todas as instâncias de nosso ser/estar.
Quero deixar esse pequeno pedido aos professores neste momento de volta às aulas: por favor, não permitam mais que pessoas digam que ler é algo do passado, ou que ninguém lê textos “longos” (não sei bem o que isso quer dizer, afinal). Nossa história, nossa ciência, nossa vida, nossa cultura, a cultura do mundo e de todas as pessoas em todos os períodos da humanidade estão nos livros. Um ser humano sem leitura não tem consciência nem de si, nem dos outros, não tem história, e como consequência, não tem passado nem futuro. E posso afirmar, sinto-me orgulhosa de ter na história de minha vida a Feira do Livro da segunda série e a professora, que se chama (ainda deve estar dando aulas, talvez) Rosa, “tão linda e graciosa/ estátua majestosa do amor”. O amor de uma Rosa pelo que nos é fundamental, mostrou para mim e para meus colegas que o mundo é um mistério infinito a ser desvendado a cada segundo, e que isso é o que faz a vida valer a pena.
Por Sally Seton.
Dedico este texto a um professor paulista que me inspira e que luta por esta paixão, que é leitura e a escrita: Rodrigo Siríaco. Para conhecer seu trabalho, acesse: http://efeito-colateral.blogspot.com.br/
(você pode também digitar Efeito-colateral no Google, não será difícil encontrar). 

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