terça-feira, 5 de março de 2013

Não sei como este texto aconteceu, mas eis que...


                    Pierrôs e Malabares


Este é um texto sobre felicidade, portanto, um texto sobre moda. Sejamos felizes! Se acaso sentir um vazio no peito, não importa, caminhe rumo ao sol e encontre sua luz interior, você brilhará e sua vida será repleta de alegrias, como a de todo mundo! Sim! Por que todo mundo é feliz, principalmente nas redes sociais. Você pode até ficar triste e se expor no Facebook, mas saiba que isto não está com nada... Se você sentir algo dentro de peito, talvez um aperto, solidão, fuja rapidinho, esconda-se, pois a vida é dos alegres e fortes! Dos vencedores! Dê um jeito, leia autoajuda, invente algo: cada um com seu “soma” (o remedinho fictício de Aldous Huxley serviria muito bem hoje em dia, seria o mais vendido nas farmácias).
O caso é que esta onda fashion de felicidade é irritante e bastante prejudicial. Muitas vezes está imbuída de falsa lógica, levando muitos, até mesmo, ao sentimento de culpa por não estarem felizes, alegres e radiantes. Essa atitude de obrigação diante de uma subjetividade que tenta ser explicada desde antes de Aristóteles, talvez, e que ainda não conseguimos conceber o que seja em poucos significantes, acaba se tornando apenas mais uma peça, um pino a mais na cansativa engrenagem, a que somos obrigados a manter girando em nosso dia-a-dia.
Nossa vida é assim, acordar cedo, ir para o trabalho, intervalo para alimentar-se, limpar-se, trabalho, comer, limpar-se, dormir, comer, trabalho... Assim giram as manivelas da existência humana. Nesse compasso quase ininterrupto (pois há os finais de semana), todo homem ou mulher que reflete, hora ou outra, irá parar e perguntar para si: qual a razão de tudo isso? – Quem já leu “O estrangeiro”, de Albert Camus, conhece este questionamento. Momento de pausa. A máquina estanque pode ser contemplada. Com isso, é possível perceber os que continuam fazendo-a funcionar, os que também vão parando por um breve instante de consciência e os que se negam a fazer questionamentos. Isso porque muitos se dizem felizes o tempo todo, por que assim indica o merchandising que os cerca.  É impossível não se sentir um estrangeiro no mundo nessa situação, é impossível não nos sentirmos sós.
Mas nossos momentos de reflexão são importantes. Eles nos permitem que sejamos verdadeiros malabaristas. Contamos com os outros, queremos que por um momento eles possam parar e dividir conosco as ansiedades, os medos, os vazios, as paixões, os amores, os fluxos de intensidades de nossas existências, todas únicas. Nessa troca, também para os outros, somos um outro, repleto de cosmos, de pulsação. É impossível estarmos felizes o tempo todo, sendo que apaziguarmos nosso coração para com o que sentimos é a melhor forma de caminharmos.  A dor pode ser, também, um privilégio. Através das adversidades e dos sofrimentos, tornamo-nos mais humildes e mais compreensivos, paramos para contemplar a vida e pensar sobre ela. Nos momentos de dificuldades, vemos o quanto precisamos uns dos outros. Isto é o que importa. Tentarmos estar juntos, com lágrimas nos olhos, ou não, é nossa grande batalha cotidiana, a mais importante.
Não há como saber o que é realmente a felicidade. Os momentos de alegria parecem não durar tanto quanto esperávamos, mas vale saber que podemos contar com uma beleza fundamental de nossa natureza humana: por baixo das máscaras de cada um de nós, somos todos pierrôs, eternos aprendizes das alegrias e tristezas.  Estamos repletos de peripécias malabares para burlar os mecanismos de produção de emoção em série, como querem alguns escritores de autoajuda, que se dizem portadores da felicidade total, como querem os propagandistas de uma felicidade artificializada e vazia...
Todo clown**  já derramou uma lágrima, que ao invés de sufocar o riso, concedeu-lhe razão eterna. Assim, podemos deixar de lado essa ânsia de nos escondermos ou “enfeitarmos” nossos momentos “não felizes”.  Caminhar rumo ao sol é importante, mas não é preciso negar a paixão que nos joga na tempestade...
Por Sally Seton.

**palhaço.
Da ilustração: imagem com direitos autorais.

O texto veio p'ro blog com atraso, mas veio...


Volta às aulas: professores &  Livros


Lembro-me muito bem dos meus tempos de escola, especialmente da primeira Feira do Livro da qual participei. Eu estava na então chamada segunda série do ensino primário e a professora nos avisou da Feira do Livro da Escola. A emoção da professora nos contagiou, até porque, ela nos contava histórias todas as semanas, e também as encenava para nós, com figurino e tudo! O dia da Feira não nos desapontou, e ainda tivemos a presença de escritores, um deles, um poeta que escrevia, também, para crianças, autografou meu caderno e deu-me um de seus livros. Beijou as crianças e cantou para elas. Nunca senti tão grande fascínio como o que aquele homem despertou em mim, falando-nos sobre a vida como se fosse outra coisa, como se a escola fosse nossa nave para fazer do mundo o que quiséssemos. Eu nem mesmo compreendia todas as palavras que ele utilizava e, quanto mais estranhas me pareciam, mais assaltavam minha curiosidade. A professora estava preparada, percebeu nossas dúvidas e fez uma lista das palavras que não conhecíamos, e lá, na segunda série, usamos pela primeira vez um dicionário. Foi algo solene! Descobrimos que os sons das letras podiam ser escritos, como se a língua guardasse segredos para que nós desvendássemos. Os grupos (sim, sempre trabalhávamos em grupos) estavam concentradíssimos, e burlávamos a professora, indo atrás de palavras que não estavam na lista, afinal, aquele livro de palavras estáticas nos enchia de ideias, tal era nossa imaginação! A culpa era toda dela e, naquele ano, lemos muito, encenamos e escrevemos nossa pequena obra literária, falando sobre a escola e sobre nossos sonhos.
Esta lembrança me sacudiu novamente quando ouvi de uma amiga há pouco tempo que alguém reclamou de seus textos, dizendo que eram muito bons, mas que podiam ser “curtinhos”, por que ninguém lê textos muito longos. Tenho de repetir: “ninguém lê textos muito longos”. Ninguém? – Não sei dizer quão inexplicável foi o turbilhão de sentimentos dentro de mim, entre raiva, indignação, perplexidade, angústia e decepção, enfim... – Mas a primeira coisa que pensei foi na escola. Acredito que aprendemos a amar a compreensão das coisas na escola, com nossos colegas e professores. Aquela professora que eu tive era singular e fez toda diferença. Hoje, vejo nas escolas professores que não leem. Não faltam desculpas: não há tempo, não sou professor de literatura, minha disciplina nada tem a ver com isso (para começar, o pronome “meu” e o substantivo “disciplina” não deveriam mais ser usados por professores), acho perda de tempo, e aí vai... – Mas chego à conclusão de que um professor que não tem como prática a leitura, especialmente a literária, vai ter dificuldades em despertar nos seus alunos a capacidade criativa, o gosto por aprender o mundo, seja deduzindo e, até, calculando, na busca de solução para problemas vividos a cada instante. Isto porque ler é fundamental para que possamos nos relacionar uns com os outros, com o mundo e com aquilo que nos preenche e faz de nós o que somos, ou nos possibilita estarmos no mundo do jeito que estamos. Ler permite a mudança, a transformação humana em todas as instâncias de nosso ser/estar.
Quero deixar esse pequeno pedido aos professores neste momento de volta às aulas: por favor, não permitam mais que pessoas digam que ler é algo do passado, ou que ninguém lê textos “longos” (não sei bem o que isso quer dizer, afinal). Nossa história, nossa ciência, nossa vida, nossa cultura, a cultura do mundo e de todas as pessoas em todos os períodos da humanidade estão nos livros. Um ser humano sem leitura não tem consciência nem de si, nem dos outros, não tem história, e como consequência, não tem passado nem futuro. E posso afirmar, sinto-me orgulhosa de ter na história de minha vida a Feira do Livro da segunda série e a professora, que se chama (ainda deve estar dando aulas, talvez) Rosa, “tão linda e graciosa/ estátua majestosa do amor”. O amor de uma Rosa pelo que nos é fundamental, mostrou para mim e para meus colegas que o mundo é um mistério infinito a ser desvendado a cada segundo, e que isso é o que faz a vida valer a pena.
Por Sally Seton.
Dedico este texto a um professor paulista que me inspira e que luta por esta paixão, que é leitura e a escrita: Rodrigo Siríaco. Para conhecer seu trabalho, acesse: http://efeito-colateral.blogspot.com.br/
(você pode também digitar Efeito-colateral no Google, não será difícil encontrar).