sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Tive de ir a Porto Alegre no final do ano (2012)... Sendo eu uma moça do interior...



IMPRESSÕES INTERIORANAS: UMA VISITA OBRIGATÓRIA A PORTO ALEGRE

Porto Alegre é uma cidade de concreto e carne na qual circulam as circunstâncias da vida, buscando seu jeito de fazer sentido. É possível encontrar o melhor que a grande cidade tem a nos oferecer apenas andando por algumas ruas: exortamo-nos a supor os estudantes da Federal por seu modo de impor alguma liberdade que nem todo mundo têm, seja nas roupas, no andar, nos fragmentos de diálogo que do ar roubamos (se estivermos atentos). É uma cidade que abriga estrangeiros, em todos os sentidos. Mas este estrangeirismo tem seu lirismo próprio, sua dança confusamente bem estruturada. Na Borges de Medeiros, a estátua viva é um anjo, anjo vivo a espreitar o trânsito humano, esta desorganizada ordem.  Cidade das misérias sob os viadutos: os que ficam esquecidos na pressa dos que precisam pegar um ônibus ou um “lotação”, eles acabam impondo sempre sua centelha de vida como se um elefante se pusesse dentro de nossa carteira, ou no bolso com as moedas. Como os miseráveis, Porto Alegre também abriga uma população considerável de pombos em paz, ignorados.
Atemporal e, ao mesmo tempo, histórica: há prédios antigos que um dia tiveram certo luxo, onde profissionais liberais anunciam seu trabalho - cada janela como um anúncio no caderno de classificados.  Pode acontecer de vermos, ao lado de algum desses prédios com semblante de mundo antigo e ares de jornal velho, imponentes gigantes de espelho, retos e bem cortados, ou em formas modernistas, vestidos de vidro fumê. As variáveis arquitetônicas não param aí, ainda é preciso parar diante das igrejas, das esculturas que se espalham e pulam para dentro da retina, algumas estão em praças e parques, outras, saem dos prédios como um susto. Mesmo no centro, há um adorável ar de cortiço, que pode exasperar o bom burguês do interior: numa única rua, é possível pagar mais de duzentos reais por uma diária em um hotel de luxo, ou vinte reais em um “hotel” qualquer, onde a vida que escorre densa não se esconde: putas e travestis conversam em uma sala, como se a vida fosse mesmo essa palavra única de concreto e vísceras. Poderia haver outra beleza maior?
Quanto ao comércio, o Mercado Público é parada obrigatória, e não vende apenas ervas, plantas cheirosas, comidas, guloseimas e peixe fresquinho. No mesmo local ainda é possível comprar alguma prataria da época do império, porcelana chinesa, vaso polonês do século XIX ou ainda anterior.  E por que não uma máscara de gás usada na Segunda Guerra Mundial? Pode-se dizer assim: diante de uma velha caixa de retratos antigos e amarelados do início do século passado, uma mulher simples revela um modo de sentir o mundo “O passado parece mais real, mais real do que o agora. É possível amar o que já foi”. É possível amar o que já foi e amar o agora em Porto Alegre, mesmo que isso nos seja incômodo, comichão ou arranhão, contanto que se sinta!
Por fim, diz-se de Porto Alegre: cantos de poeira, bancos vazios, hospitais lotados, moleques buscando um jeito de comer ou de fumar sua pedra cotidiana... Galerias, travessas, viadutos, pintores esparramados, arte que respinga aqui e ali, que insiste, poesia que viaja de ônibus. As latinhas de refrigerante, nessa cidade, podem virar paisagens, ou mesmo carregá-las junto da língua do povo. Tribo! Os índios também estão em Porto Alegre: Caingangues vendendo sua arte de folha seca, ao lado de donas de casa vendendo pássaros de papel. Tribo! Na Av. Voluntários da Pátria, um casal dorme na calçada. Bêbados, abraçados um no outro sobre um colchão velho. Macerado amor e abandono profundo. São seis horas da tarde, eles (o casal) estão livres e o mundo está doente. Antes de se despedir, no caminho para a rodoviária, na Avenida Mauá, ainda é possível comer o melhor espetinho de frango da cidade – assim garante o atendente do barzinho de mesas redondas, como são as mesas em quase todos os barezinhos como este – E contemplar ao longe as grandes embarcações no Guaíba, com seus cascos carcomidos de ferrugem, ou tomados de musgo. Sobre elas, as aves mergulham manso no céu e o burburinho da vida perde todo o seu sentido. Sobre os imensos telhados dos galpões do Cais, os pássaros, algumas vezes, parecem entrar em pânico.



Por Sally Seton.

Exercendo meu direito de "viajar" um pouco no dia a dia, como todo mundo...


Reflexo: Cloud Atlas e a fila.

Não sei se vocês já assistiram ao filme Cloud Atlas, dos irmãos Wachowski, lançado no ano passado... Bem, não vem ao caso uma opinião ou análise do filme em si, já que são três horas de filme, com roteiro adaptado de uma extensa obra. O caso aqui é a fila do açougue no supermercado.  Vejamos como havemos de colar as coisas... Já, já faremos isso. Antes, uma pequena narrativa verídica: estávamos, eu e uma amiga, na fila do açougue esperando nossa vez. Como a desatenção, ou o “destrambelhamento”, como dizem os mais chegados, é uma de minhas características mais marcantes, esqueci-me de pegar a senha numérica. Foi sorte minha amiga ter lembrado e, quando fui pegar a senha, um senhor fez questão de apurar-se, para pegá-la antes de mim. Este senhor com pretensões sabichonas e gesto vivaz não estava na fila, chegou assim “do nada”, pegou a senha numérica e, para demostrar o quanto se orgulhava de suas habilidades e de sua esperteza, saiu a zombar de nós duas, rindo debochadamente em nossa direção, enquanto ia se dirigindo para frente até mesmo de outros que, ali na fila, estavam esperando. Talvez ele quisesse, não apenas nos debochar, mas realmente mostrar aos demais o seu “grande feito”. Estamos quase lá, na colagem das coisas: filme e fila do açougue. Ainda tenho de chamar a atenção para um fato importantíssimo: não obstante minha desatenção, com senha ou não; estávamos esperando pacientemente nossa vez, sem que isso fosse um incômodo para nós.
Agora sim: o filme. Esta obra que pode parecer até chata para alguns (notem que são três horas de filme), enfim, é bastante eficaz em desenvolver o tema a que se propôs: trata-se de vários personagens, vidas e histórias diferentes, distribuídas ao longo do tempo (passado, presente e futuro), em lugares distantes umas das outras. O que as entrelaça são as ações dos personagens. O filme tenta mostrar como um gesto mínimo de bondade e gentileza pode mudar a história de uma vida e, por conseguinte, toda a história de um povo. Claro, não é pouca coisa! Está é a reflexão que buscamos ao relacionar estas duas narrativas: a importância de nossas atitudes. O filme trata de algo em que acredito profundamente, e esta minha pequena experiência na fila do supermercado contribuiu para reforçar meus sentimentos mais profundos com relação às atitudes humanas. Uns vão achar que é exagero, “pobre do homem, ele não tinha más intenções, etc e tal”; mas a verdade é que, naquele momento em que ele zombava de nós, eu o desprezei por seu gesto. Não por que eu tivesse pressa em comprar o bife (até porque ando fazendo dieta), mas pelo simples fato de ele não ter sido gentil. Sua grosseria o tornou grotesco a meus olhos, e não tenho nenhum receio em dizer: senti nojo de sua falta de ética. Sim, falta de ética! E, como se não bastasse, - acho que até por isso me vi lutando contra sentimentos tão ruins – este senhor ainda deve ter ido para casa com orgulho do que fez, levando seu ato como um troféu a ser contado aos amigos em forma de piada. Ele poderia ter sido carinhoso, respeitando a mim e a minha amiga. Tivesse ele sido gentil, com certeza, ficaria em minha memória com afeto, além de ter tornado nosso dia mais belo, mas ao contrário, ele acabou gerando um franzir de testa e péssimos sentimentos, o que não deixa de ser uma violência a se desdobrar dentro de nós. “Não dá p’ra tapar o sol co’a peneira”: educação, gentileza e ética são termômetros que mostram o tanto de respeito que um ser humano carrega consigo. Cabe a nós escolhermos qual a melhor atitude, o melhor gesto, a melhor palavra a ser dirigida ao próximo. Nós somos, uns para com os outros, uma responsabilidade infinita. Não saber disso gera todo o resto que vocês já sabem, basta ligar a televisão.
 Por Sally Seton.