domingo, 22 de janeiro de 2012

Entre as tantas coisas que fiz nas férias...

Encontrei uma "crítica" feita à um livro que acabei de ler... Parece pouca coisa, mas não é. Isso aconteceu faz pouco tempo, por isso a sensação de inquietação ainda não passou. Por causa dessas leituras, tanto a do livro quanto a da crítica elaborada a seu respeito, tenho andado a pensar nas coisas que li com muita dificuldade, pois tendo eu saído da favela, de certa forma, sempre pertencerei orgulhosamente a ela e sei como é difícil ler quando a vida, impiedosamente, nos obriga a largar um livro para trabalhar em algo alienante na busca de arrecadar algum dinheiro para comer. Já fiz muito isso, e me doeu bastante não poder ler nessas ocasiões. Hoje, com minha nova profissão, ainda encontro dificuldades para ler, mas há como criar um espaço para isso na desenfreada luta pela sobrevivência. Por isso,  quando posso abrir um livro, costumo ser muito meiga com o que leio, mesmo quando me machuca... Deixo a leitura  tomar posse de mim, que ela seja... Permitir-se para uma obra literária (diga-se: literatura em si) é saber que este tipo de leitura é um processo também físico, que nos leva direto aos desejos e gozos, traumas, castrações, sonhos e desilusões, para o fantástico, para o maravilhoso ou para o perverso. Geralmente, quando uma obra grandiosa chega até mim, mesmo que queira estuprar, deixo que venha, sem esconder o rosto para negá-la... Foi assim, desse jeito intruso, que Puig me pôs em sua teia e eu amo tudo dele, até as esfoladelas... Mas esta é outra história, e também do Puig não sei falar, a ele só sei amar, muda e submissa, como as mulheres mais antigas...


Caso é que eu li O Arcanjo Inconfidente, e também a crítica de que falei logo no início. No entanto, deste livro só posso falar um pouquinho, não que eu não tenha conseguido amá-lo, simplesmente me deixou como quem toma soro por estar desidratada, não sei se hidratou alguma coisa, realmente, mas o gosto nem me fez lambuzar a boca de desejo, nem cuspir por ser ruim de engolir.  Isso também não vem ao caso, já que são coisas da pessoalidade. Não vou ficar aqui recontando a história, por três motivos: a crítica que li já fez isso, e vou deixar o link aqui. Segundo: se eu contar, que graça vai ter para o futuro leitor? Terceiro: haja saco! 

Bom, acontece que eu não ia dizer nada sobre O Arcanjo Inconfidente. Pensei: está lido. Ponto final. Mas um dedo incômodo se interpôs a cutucar-me quando vi uma comparação da escrita desta obra com a escrita de José Saramago. Foi quando pude em realidade notar que muitas coisas neste livro são como pequenos pontos disfarçados os quais, quando observados mais de perto, vão construindo uma imagem incômoda que parece não estar de acordo com a paisagem mostrada em plano geral. Assim, quando comecei a leitura, não percebi prontamente...  Somente depois, com a leitura quase acabada,  pude notar que o velho, o protagonista da coisa toda, insiste em usar a palavra "rabo", tal qual o personagem de Memória de Minhas Putas Tristes - provavelmente a obra que "inspirou" a estrutura do diálogo, talvez até todo o resto do romance em questão... Esse detalhe muito me incomodou, já que Gabriel Garcia Márquez tem em sua escrita umas magias que, caso alguém queira repetir, que seja em processo dialógico e ético, não com uma estampa feita a carimbo...  Este detalhe não bastava, era preciso, ainda, encontrar a comparação da obra em questão com a escritura de José Saramago. Não posso deixar de sentir um leve desconforto nos ombros... Não há muito de Saramago nesta obra, pois este querido autor português não descreve sem ser simples e necessário. Desperdiçar a língua em adjetivismos sem razão, nem pensar! Também, tirar pontuação nem sempre indica José Saramago, até porque não é ele o único a fazê-lo. Pensei que alguém poderia comparar esta obra a de outros escritores, como Machado de Assis, pelo excesso descritivo, por exemplo, embora machadiano não seja - e tenho lá meus motivos para pensar em Machado - acontece, pois, que o narrador neste romance não se sustenta para tanto e suas intrusões impõe "visões" ao leitor, além de perder a certeza entre discurso indireto livre e intromissões de uma primeira pessoa do plural - como se fosse simples colocar todo mundo na mesma bandeja! Universalidade não é isso. - No caso do narrador machadiano, há um convite  a reflexões universais, pois este não se desloca de sua perspectiva, independente das “ruas” que escolhe percorrer, deixando o caminho claramente construído para que o leitor (na maioria das vezes, a leitora) possa refletir sem que a ele(a) seja negada sua cidadania, sua humanidade. 

É importante o narrador saber como quer olhar e, consequentemente, ele tem de ver. Também é importante que a língua busque os tais “desvios necessários”, que a obra recrie a língua e redirecione a fala de um povo: por mais voltada que esteja para um ‘eu’, este tem de ser tudo e todos! Mas isto também "são outras", como dizem. 


Caso é que, a comparação com Saramago, neste caso, fica tão estranha quanto comparar, no caso, esta mesma obra com a de Machado... Já que é possível fazer, porque não comparar a escritura de O Arcanjo Inconfidente com a de O ciúme, de Grillet? (deixo este questionamento assim... Esta é a melhor atitude).


E como a intenção aqui era poder, ao menos, desabafar, esta pequena colocação basta. Não acho que valha a pena ficar falando, analisando... A minha opinião não muda coisa alguma, afinal não vende nada e não afaga com brocados nada que venha a vender alguma coisa; meus olhos, boca, coração e leituras, menos ainda...No fim ficamos todos como o eu-lírico de A. de Campos, numa cadeira a olhar a rua, a olhar "a tabacaria do outro lado rua", no meu caso ainda mais próximo disso, pois que sento e acendo um cigarro...



O ruim é eu não poder me manter em comparações por muito tempo, pois o fato de ter falhado como pesquisadora foi por ter me colocado como amante das leituras, sem conseguir manter o tal distanciamento de que tanto clamam os críticos...  Ainda mais, a leitura para mim é minha luta contra a alienação cotidiana, que nos agride e nos obriga a nos tornarmos, cada vez mais, meros avatares sem rosto. Assim sigo amando o que é a única coisa que pode salvar o homem de sua inconsciência. Ler é obrigatório e necessário, ao contrário do que pensam alguns, pois é a única maneira de compreendermos os mapeamentos e circunvoluções da psique humana. Os que não leem  são vítimas de um sistema bem articulado que lhes vende a ideia de que não precisam ler, facilitando cada vez mais a publicação de  escritas preconceituosas, cheias de pompa e exibicionismo vazio, junto a bestsellers impregnados de futilidade e períodos simples. Tudo sob uma bem elaborada e falsa égide de dignidade literária que não possuem...

Esse meu desabafo acabou acontecendo por necessidade, não apenas pelo livro lido, mas pelas críticas do tipo opinião de jornal, que precisam ter mais cuidado ao fazerem comparações quando se utilizam dos amores do mundo na construção de argumento com base no testemunho de autoridade para validar seus textos... Aqui ainda vale a ressalva: por mais opinativa que seja uma leitura, há uma responsabilidade muito grande quando nós fazemos comparações. Toda comparação, neste caso, é assunto para a literatura comparada, e o melhor é não mexer muito em abelheiro... Eis o sábio jargão: "tudo tem limite!"


Para terminar esse texto de forma agradável, fica uma dica para a pós leitura de O Arcanjo Inconfidente, caso o leitor já tenha sentido a absurdidade do todo onde se vê existindo, ou já se tenha apaziguado com os vazios essenciais e tenha ficado com essa vontade de comer mais, de beber, de fumar, de estar, enfim: Albert Camus...  E deixa que ele te pegue no braço, mesmo que ele seja ríspido... 



o link para o texto (a crítica) de que falei no início: AQUI


Besitos!!!

fonte do gif: tumblr