sexta-feira, 15 de abril de 2011

Mira como soy escandalosa...




O “educar para a vida” está se tornando expressão desbotada… Mas há que se ter cuidado como o que, acidentalmente, vira clichê…

Eu estava dando aula em um  “cursinho pré-vestibular” quando, de repente, fui demitida. Preparei a aula, cheguei no tal “cursinho” e o administrador me chamou em sua salinha particular, construiu (ou tentou), segundo suas possibilidades, um discurso clichê e nada útil sobre  uma pesquisa com os alunos, a qual demonstrou que minhas aulas são “boas, mas podem melhorar” e que, também, são “cansativas, pois eu “falo demais” e blah blah blah. Isso sem contar outros tantos disparates, em meio  aos quais pude ouvir nitidamente a palavra “pedagógico”. Lembrei-me daquela cena em Philadelphia onde o protagonista é demitido, sendo isso feito com toda a “educação” discursiva possível – é mole?! Fui direto ao ponto: ”estou fora? Pois se estou é apenas dizer”. Tentei dizer a ele que não precisava se justificar, afinal era o seu “negócio” que estava em risco.

Dizer que não há aulas melhores que as minhas seria, além de absurdo, ridículo, pois ninguém é melhor que ninguém – coisinha óbvia, mas que deve ser sentida em sua complexidade, o que raramente acontece – ou, um outro caso, dizer que sou uma professora (se é que alguém pode rotular-se dessa forma), pode gerar sérias discussões. Até porque entre um professor (que é tratado como um professor, apenas)  e um professor-educador, as diferenças podem ser marcantes. Digo isso porque, no ambiente já mencionado, por motivo de uma tentavia de educação, algum tipo de … Enfim, chamavam-me professora, de uma forma um tanto mecânica, o que pode não ser agradável ao educador, ser humano que orienta processos, colocando-se apenas como um mediador.

Retomamos o que foi dito antes: o professor é antes de tudo um mediador no processo de construção do conhecimento – sim, construção, porque o conhecimento não é algo pronto e acabado, é processo infinito, cotidiano, dialético. A complexidade é sua base. Por isso, todo professor deve ser, antes de tudo, um educador, ciente da complexidade necessária para contribuir efetivamente nesta caminhada.

Pois o caso relatado anteriormente fez com que eu questionasse seriamente o que anda acontecendo na educação, procurando respostas através de um olhar que se alarga e tenta ver alguma clareza em meio a tanta desordem e ignorância. A questão é: o que um cursinho pré-vestibular tem a ver com educação? Se educar é orientar um ser humano para que ele possa “aprender a aprender”, para que tenha autonomia, para que possa caminhar por si mesmo, então, qual é a relação entre essa busca de conhecimentos e um  estabelecimento comercial que pretende vender o conhecimento, considerando este um produto acabado, o qual precisa apenas ser “esquematizado”, como quem embala um pacote de biscoitos? A resposta é iniludível: nenhuma.

Liga-se imediatamente a este questionamento, um outro, extremamente necessário e bem mais profundo, de caráter social: para quem se dirige a educação em nosso país e para que finalidade? Se a escola não prepara o aluno para o vestibular e, como podemos observar, também não o prepara como cidadão, onde se encontra sua função fundamental?

Precisamos de uma reestruturação geral de nossa visão para com a educação, em níveis culturais e sociais. Fica claro que a educação em nosso país é feita para uns poucos, os quais tem mais condições: são os “burgueses” do Brasil. Estes pagam escolas privadas (as quais não deveriam existir, pois todo cidadão tem, perante a lei, direito ao ensino público gratuito e de qualidade; qua-li-da-de), ou quando não o fazem, procuram após o Ensino Médio por um cursinho pré-vestibular, que tem por finalidade fazer com que o jovem relembre o que supostamente teria aprendido, ou que, através de esquemas, consiga compreender sistemas complexos, de forma superficial, momentânea e inútil, para que passe em um vestibular. O sonho da universidade, infelizmente, parece ser um sonho para poucos.

Esse tipo de estabelecimento comercial de ensino também intensifica as disparidades sociais, dando força ao absurdo dito popular que diz que “quem pode mais, chora menos”: o que dizer dos pais que, sofrivelmente conseguem dar conta do dia-a-dia de um lar e fazem de tudo para pôr seu filho em um cursinho desses? Tudo muito de acordo, é preciso infiltrar-se, “confraternizar” com os tidos por nós mesmos (culpa nossa, sim!) como superiores,entrar em um espaço considerado, sabe-se lá o porquê, elitizado. Passado o desconforto geral causado por uma discriminação invisível , sutil e danosa, estes jovens acabam por achar, como dizem, “muito bonito” rir do que não tem graça, agir de forma petulante, entre outras coisinhas mais que, da forma mais lastimável, tendem a imitar. Que desrespeito! E poucos são os que possuem autonomia para estar num ambiente assim e perceber que estão ali por causa do alarmante descaso para com a educação, que deveria tê-los preparado para não terem que passar por estas situações, gastando, mesmo, um dinheiro que poderia ajudá-los a adquirir conhecimentos reais: aprender um novo idioma, fazer cursos profissionalizantes.

Aí alguém dirá: mas então os jovens tem de trabalhar, fazer uma outra coisa? A melhor maneira de responder é com outra pergunta: e por quê não? Trabalho é algo digno e dá maturidade através da vivência real, do fazer, executar, alcançar resultados e, ainda, trabalhar em equipe. Essa maturidade é mais importante para quem quer entrar numa universidade do que qualquer outra coisa. Mas, e se o jovem não entra no tal “universo acadêmico”? Seriam as outras profissões menos necessárias do que aquelas que exigem um curso superior? Sendo ainda que, o único modo de exercer uma profissão assim, muitas vezes, é ter de passar em mais uma prova seletiva (importante ressaltar o adjetivo).

A escola tem de formar um ser humano capaz de conviver em sociedade, de compreender-se e compreender o outro, de fazer escolhas de acordo com seu raciocínio, de ter sua própria opinião e agir com compromisso social. Tudo isso é função da educação, somando-se ainda nesta lista os conhecimentos acadêmicos necessários para que um jovem possa prestar vestibular e ser admitido, se assim o quiser. Lembrando aqui a palavra “pedagógico” que foi citada no primeiro parágrafo: trata-se disso, a escola tem de mudar sua postura pedagógica que enfileira um monte de jovens, uns atrás dos outros, criando a individualização, a disputa, etc.. Preocupar-se pedagogicamente não é trocar a máquina de fazer café, porque alguns jovens pagantes não gostaram do café que ali consumiam. Uma instituição de ensino que tem por base a seriedade não leva em consideração tais disparates. É um absurdo! Uma instituição de ensino não é um shopping center (pois é isso que nos faz lembrar a disposição visual de alguns cursinhos pré-vestibulares). E mais, uma instituição de ensino não pode ver sua equipe como gado… mas isso é conversa penosa, que até dói um pouco no coração, essa nossa condição de gado… Fica pra outro momento, não aqui, mas em um bar, com bons amigos.

Então, para os que não podem fazer cursinho pré-vestibular, e não são poucos, vai aí uma boa verdade: vocês só precisam disso porque o sistema educacional não é justo. Ganhei uma bolsa num curso desses, se não me engano, há muito tempo -  talvez num tempo em que mesmo a educação sendo tratada como um negócio, ainda se tinha consideração por direitos humanos. Posso dizer que não me sentia bem com a discriminação naquele ambiente e, das aulas, não lembro coisa alguma. Lembro-me de uma enorme apostila que guiava aos pulos e de uma série de cançõezinhas para ajudar a, imaginem o absurdo: decorar conteúdos. Era mecânico. Quase todos os "colegas" foram reprovados no vestibular das Universidades Federais e, muitos destes, depois, entraram em universidades pagas, algumas de qualidade duvidosa. Não atribuo o meu bom desempenho ao cursinho. Sentia que de novo, nada trazia e, que o que eu  não tinha aprendido, ali eu não aprenderia. Acredito que passam aqueles que, com cursinho ou não, tem autonomia suficiente para organizar o seu próprio processo de aprendizagem. Passei com boa nota e comecei a cursar Letras em uma Universidade Federal . O que eu queria mesmo era Artes Cênicas. Não pude fazer na época, motivos financeiros, claro. Mas a Literatura, as Línguas e a Educação são carreiras maravilhosas e não me arrependo. Nunca quis ser médico ou advogado, nem mesmo no sonho mais distante. Há os que querem! Que bom, precisamos disso! (claro,  funciona se o médico e o advogado não forem criminosos ou sujeitos individualistas que nada contribuem para uma sociedade mais igualitária e saudável). O que vale é fazer o que for, segundo as próprias escolhas. Uma boa receita é ter um grupo de amigos que possam ajudar a aprender aquilo que não conseguimos na escola, discutir assuntos diversos, ter curiosidade, vontade, enfim, querer isso – pois, repetindo, pode-se desejar uma outra vida, não menos linda, não menos importante para a sociedade.

Mas e os professores dos cursinhos? Eu bem que gostaria de trabalhar em um cursinho novamente. Para sobreviver neste mundo onde tudo é um produto, tornamo-nos um produto. Sim, por que “onde já se viu” avaliar o jeito de ser de uma pessoa, sua expressão própria, sua subjetividade? Desde quando isso é condição sine qua non para a ação docente, ou mesmo para o bom rendimento discente? Mas, infelizmente, estamos a venda e temos de nos adequar; fazer o quê? Se sou contra cursinhos? Claro que sou, mas não tenho nada contra disponibilizar-me a fazer um bom trabalho pelo pagamento justo (se é que isto também é possível), até porque ser um educador em nosso país, por mais ridículo que isso seja, tem sido motivo de vergonha para muitos de nós na área. Não conseguimos manter nossos lares, nosso salário é extremamente desrespeitoso, nossas escolas não têm infra-estrutura e nos vemos abandonados. Talvez, por que algumas verdades nunca são bem vindas, eu nunca mais vá trabalhar em um cursinho depois deste texto. Mas isso pode ser irrelevante, por que tudo isso pode (e deve) mudar um dia. O que eu queria mesmo é que a sociedade me respeitasse, a mim e aos meus colegas, como deveria. Que tivéssemos bons salários e boas condições dentro das escolas, possibilitando  trabalhar junto dos educandos para que todos tenham uma vida saudável e honrosa.

No momento, fico por aqui, dizendo o que penso e o que tenho direito de dizer, racionalmente ou não, obedecendo às emoções ou à razão, tanto faz. Importante é ter um tantinho que seja de liberdade, – já lembrando de um fato ocorrido com um funcionário que, quando teve sua opinião solicitada no dia de minha “expulsão” por não ser um produto 100%  apropriado para o negócio, disse “Eu, eu não acho nada”, não é uma crítica, apenas lembrei e fiquei triste, até porque, talvez, eu tivesse feito o mesmo (gado e tal e coisa e coisa e tal…)  - e vou usar esse tantinho de "liberdade" que confere certos direitos, como o de falar, ler, escrever e ter alguma opinião, enfim, para encerrar deixando um link onde podem ser acessados vídeos nos quais um educador fala algumas verdades óbvias e fundamentais…

DEIXO UM BEIJO A TODOS OS PROFESSORES, ALUNOS (DE CURSINHO OU NÃO – POIS SOMOS TODOS IGUAIS), TRABALHODERES EM GERAL… PARA TODOS QUE ESTÃO CAMINHANDO E TENTANDO: PARABÉNS! E NÃO SE PREOCUPEM, ESSA NOSSA CAMINHADA NÃO TEM PREÇO… NÃO PODE SER VENDIDA OU AVALIADA NUMÉRICAMENTE …

Bye...

Gostaria de fazer algumas observações importantes: 

!) Educandos, ou para os que preferem, alunos, são sempre alunos. Todos precisam aprender continuamente, sempre, independente da classe social à qual pertencem. Eu já havia dito isso ao ter reiterado mais de uma vez a afirmação de que todos nós somos iguais, mas pode ser que alguém não tenha entendido.
2) Professores não precisam se referir os educandos nem como especiais, ou perfeitos, são pessoas, algumas com defeitos horríveis de caráter, outras mais maduras e humanas, estando todos dividindo um mesmo espaço onde prevalece a igualdade de direitos.
3) Gostaria de destacar algumas instituições particulares de Ensino Superior, dizendo desde já que é uma pena não serem públicas, mas que representam orgulho para o Rio Grande do Sul enquanto instituições socialmente comprometidas, com qualidade de ensino e educação excelentes (embora, muitas vezes, são pouco lembradas, tanto pelos jovens que tentam a bolsa do ProUni, quanto pelos que podem pagar), são elas:

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Fonte original: "mathdvision" on Tumblr - link abaixo do texto.



Os fones estragaram

Devido a real afirmação mencionada no título, tenho ido para a escola, sem ouvir qualquer tipo de música, apenas acompanhado pelos sons de carros, ônibus, chaves, pássaros nos fios e “bons dias” soltos ao vento.
O vento começou a infiltrar-se por dentro da cidade mais do que o normal, mesmo o outono não tendo chegado. O nosso verão esfriou um pouco mais nos últimos dias, fazendo com que no período da manhã, transitem nas ruas narizes e ouvidos gelados, bochechas pouco rosadas, dedos quase intáteis.
Mas como toda mudança não é aconselhada a ser brusca, o verão não vai direto ao inverno. Estamos saindo da estação de uma felicidade infantil e inocente, de cores vivas, alegres e brilhantes. E começando a nos preparar para receber uma estação com tons cinzentos, que muitos não gostam, imitando assim, a verdadeira condição de todo e qualquer ser humano.
A terra tem sido bondosa, se desdobrou um pouco mais, para nos dar essa oportunidade de preparação para o temido inverno. A estação mais humana de todas (talvez por isso temida por alguns). A estação em que as pessoas se tornam mais reais e mais carentes, revelando necessidades que os corações gelados guardam, e que precisam ser saciadas.
O inverno nos torna famintos por corações quentinhos, assim como mendigos por moedas. Faz-nos sentir a falta de um calor humano que nunca encontramos quando andamos pelas ruas entre as pessoas. Ele nos faz sentir frio, frio o qual, esfria e resfria e re-esfria até a alma. Ele nos torna necessitados pelo calor do outro corpo, calor o qual, somente esse, consegue aquecer nossos corações gelados, carentes e solitários. Esse frio não tem cura. Esse calor é o tratamento. O processo é cansativo. O resultado é longínquo. A experiência é deliciosa.
Portanto: que venha o inverno…
To F.C.M.K.
^^
ACESSE:  mathdvision.tumblr

Registro pessoal de MatheusD.