sábado, 7 de agosto de 2010

Crônica de uma filha...


Quando o homem recebe a descoberta de que será pai, a reação mais comum, principalmente em se tratando de Brasil, e mais, RS, enfim, a reação imediata é “-Bah!”. Esse “Bah” carrega em si inúmeras dúvidas, nele está contido, por exemplo, uma das questões mais usadas em situações de desespero: e agora?
Daí o que decorre é uma longa espera, até o momento de saber o sexo do bebê... se for menino, para o pai, ótimo! Já se imagina jogando futebol com o carinha, ensinando algumas boas malandragens e tudo mais. Mas nem sempre funciona assim. Às vezes o filho, ainda na adolescência, prefere livros a futebol na televisão. O caso pode ser grave, o menino começa a ler Kafka com 15 anos! Mais grave quando diz que quando crescer quer ser artista plástico, escritor, músico ou bailarino... Os pais começam a sofrer pelos futuros bolsos vazios com antecedência. Filho artista é caro, todo pai sabe disso...
Mas, se for menina... Têm-se um agravante: duas mulheres. A namorada já dava aquele trabalho: emburros, gastos com presentes e paciência... Santa paciência... Acontece que agora, além da namorada, serão duas meninas. Enquanto é bebê, tudo bem. Mas não demoram a aparecer as características que marcam o fato de o bebê ser uma menina. Aos três anos uma menina já aprendeu que se beijar o papai, ele pode até dar um agrado e que o choro é uma arma poderosa para conseguir tudo, absolutamente tudo.
Isso é só o começo... até a adolescência tudo tende a correr meio tranqüilo, embora o pai tenha que comparecer a inúmeros eventos voltados para as menininhas (apresentações de ballet, a festinha das amiguinhas, etc.)... e “ai” do pai se não comparecer, a mágoa pode surgir com tons de tragédia. Vai ter, também, de aprender a pentear cabelos compridos e aplicar certos acessórios de uso extremamente complexo para os homens, como chucas, mini piranhas e tic-tacs... a maioria dos pais consegue se safar usando a prática tiara, é só acoplar e deu...
Se a menina ganha um irmão, ou já tinha um, e ele é do tipo “carinha” do futebol e tal... Ela tende a aprender mais rápido: é só fazer comparações: porque eu não??... o “Pedrinho ou fulaninho” nem estuda, mas olha lá meu boletim! – ou – Esse guri passa na rua e eu não posso ir numa festinha com as gurias!! Porque heyn? Porquê? Agora se o irmão for artista ou nerd, não haverá muitas vantagens...mas também não haverão muitas brigas, o que ajuda...
E a fase do terror? Ah é... A fase do terror é a adolescência. Ich... A adolescência é a fase da música, por exemplo. Os pais da atualidade tem de ouvir NXzero, Slipknot, Paramore, etc. Ainda no meu tempo, meu pai tinha de ouvir Simply Red ou os caras do Smashing Pumpkins...
Para meu pai era o horror. Logo ele, que gostava de ABBA. Decorei Dancing Queen e nem sabia inglês!! Mas era isso e Beatles. Meu pai parou nos Beatles. Depois não conta! Uma tarde ele passou na frente da televisão enquanto eu assistia a um show da minha banda preferida e disse que filme de terror só era bom à noite... de dia “num” dava medo... Olhando melhor ele disse: hummm, mas quem canta é homem ou é mulher? – coisa da década de noventa... os punks estavam se estinguindo....
Mas a música não é tudo... Tem também os namoros!! Com filho homem é mais tranqüilo... Primeiro conselho do pai é: cuidado guri, tu não vai ser pai heyn!? Outro é prevenir quanto a doenças e tal... O último lembrete é: cara, tem que tratar bem as gurias, olha lá...!!! A maioria escuta direitinho... Agora, com a filha mulher... Ah... Os namoros da filha!!! Como? O neném, a princesa...não é possível!! E não é só por namorar não. Quando eu era adolescente, meu pai podia ver todo o rosto do fulaninho... Hoje fica difícil, com as franjas cobrindo metade do rosto... Fora outras modinhas que dão medo em qualquer pai: ferros e argolas pelo rosto, alargadores de orelha, gel, lápis de olho, tem até os que pedem toda a maquiagem da guria emprestada... Mas os fortinhos metidos a machões, acho que ainda continuam assustando mais aos pais, na mesma proporção que os malandros... E pai sente cheiro de malandro... de longe, e já prevê um futuro próximo onde o malandro rouba suas cervejas da geladeira...
Outra coisa importante são as estratégias femininas para com o pai. Uma muito comum é a preocupação acompanhada de diminutivo: paizinho, o senhor ‘tá bem? Quer que eu faça um sanduíche? – Pode saber que o presente vai sair caro. Dependendo do número de prestações que o pai terá que pagar pode sair até um: quer que eu prepare um chimarrão pro senhor, pai?...Quer? Sentar no colo e dar carinho no cabelo já garante bons negócios, ou também serve de estratégia amansadora...
Mas a verdade é que todo pai sofre, seja filho homem ou seja uma mulher. As relações, as preocupações são diferentes, mas não menos intensas. Todo pai sofre porque sabe que um dia seu menininho será um homem, marido, pai... E sua filha uma mulher, esposa e mãe. Todo pai sabe que os filhos serão a continuação de seus atos e idéias. O Amor, o cuidado, o respeito, a amizade, a honra, a justiça, a lealdade e tantas outras formas de bem viver a vida, ensinamentos que são passados de geração à geração ...
Mas... Nada me faz esquecer um comentário de uma colega de curso, muito querida, quanto à severidade e cuidado dos pais para com uma filha... Ela disse:
“Todo pai é durão e adora dar castigos, mas quando a gente cresce e diz “pai, vou me casar”, eles choram como meninos e ainda dizem: viu, eu sabia, é tudo culpa da tua mãe...”

Flávia Martins – Uruguaiana
07 de agosto de 2010 – Homenagem ao dia dos pais.
PARA MEU PAI:



Um comentário:

  1. Muito, muito legal Flávinha! ^^

    Não adianta a geração. Sempre toda preocupação dos pais se repete, só o que muda é a música e roupas dos filhos.
    Parabéns pela crônica, com certeza teu papai tem um orgulho enorme de ti!

    Beijo'

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