terça-feira, 27 de julho de 2010

Clarice!! Feliz Aniversário!!




"Choram Marias e Clarices

No solo do Brasil..."

Ah..claro... como eu não me lembraria desta composição de João Bosco e Aldir Blanc nesta data? Coisa de mãe...Mas coisa bem particular de mãe...
Não se trata só daquele orgulho, daquela alegria, mas também de saber que muita coisa vai doer para minha Clarice... por ser mulher, por ser brasileira e/ou por simplesmente estar no mundo.
Sei que ela poderá falhar em algum momento. Sempre estarei lá...não importa! Sempre imaginei no nome Clarice um nome de força, mas não um nome de força no sentido de: a que sempre vence, a que consegue tudo, a que nunca se deixa abater...Não! Acho que por ser leitora de Clarice Lispector (por isso minha Clarice é com "C") sempre imaginei ser este um nome de força no seu sentido mais ambíguo; o de também fraquejar e ter coragem de admitir "-fui fraca", de não mentir para sí quanto aquilo que precisa ser ultrapassado, mas também não se condenar por não ter conseguido fazê-lo...Considero esse amor por nós mesmos, que é capaz de fazer com que consigamos nos perdoar, como sendo a força verdadeira e necessária... e como disse, sempre achei que o nome Clarice carregasse um pouco dessa força...
Espero que minha Clarice seja doce...ou como aconselhou Elis Regina à sua filha...que seja LEVE...não existe maior força do que esta que permite ser leve, consigo, com os outros e mesmo, com lágrimas nos olhos.
Te amo minha filha... Feliz Aniversário! Deixo para ela nesta pequena homenagem... esta leve leve leve coisa...

terça-feira, 6 de julho de 2010

E você vai continuar fazendo música?


Valeu à pena
Eu poderia falar sobre as inúmeras desvantagens de se ter uma banda de rock, falar mal da cidade em que vivemos, falar da falta de perspectiva, de não poder investir em um trabalho próprio, da falta de respeito dos donos de casas noturnas, emissoras de rádio, enfim!Tudo que já foi dito, tudo isso poderia ser comentado outra vez, mas o fato é que hoje, quarta-feira 23 de junho de 2010, depois de mais de 16 anos correndo atrás de um sonho, e levando muita bolada nas costas, eu enfim descobri por que, apesar de tudo, tudo valeu à pena!
No último sábado, dia 19, tocamos em um bar de nossa cidade, o Heineken bar, até ai um show como qualquer outro, caras conhecidas, amigos, cerveja, tudo normal, mas em um determinado ponto do show, resolvemos chamar um amigo nosso para fazer uma participação em uma das músicas, levantei da bateria, entreguei as baquetas, falei algumas coisas sobre a música (como se ele já não soubesse!), e fui curtir uma de platéia, foi então que eu vi, nosso grande amigo e quebra-galho, Edir ou Ride Winchester, como ele gosta de ser chamado, mostrando com que espírito se deve pegar num instrumento para levar música às pessoas.
Além daquele brilho nos olhos que é comum num cara que nunca tocou pra uma platéia, eu vi no rosto dos meus companheiros de banda que já tem anos de estrada, o mesmo brilho, como se todos ali estivessem com 15 ou 16 anos de novo, e aquilo acabou contaminando as pessoas que ali estavam, e tudo virou uma grande celebração, algo que só a música tem o poder de dar!
E hoje olhando as fotos enquanto as postava no Orkut da banda, eu pensei que tudo em nossas vidas deu certo sim! Se haviam pedras no caminho, elas foram transformadas, em criatividade, confiança, e principalmente em amizade, somos muito mais que uma simples banda animando um bar, somos amigos, namorados, maridos, pais, temos um ao outro, nos socorremos nos momentos difíceis, e depois celebramos nossas vitórias, ou aceitamos nossas derrotas com a cabeça erguida, porque temos pra onde voltar, e temos nossa música, e quem esta ali assistindo só vai ver o show da DeLorean,
Valeu à pena, e eu faria tudo outra vez, tocaria de graça, dormiria em quartos sujos de hotel, ouviria todas as besteiras de um locutor de rádio que acha que Fresno é rock, ou um dono de bar que acha que é dono mundo porque aprendeu a gelar uma cerveja e resolveu dar uma chance pra “bandinha que ta começando”, eu faria tudo de novo pra chegar até aquele sábado, dia 19 de junho de 2010, e ver meu amigo Edir tocando, e todos bebendo e dançando. Vale à pena sim, Rogério Skylab que me perdoe, mas eu vou continuar fazendo música!

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Queiram-nos, pois nos colocamos a disposição...


Pertencer
Clarice Lispector

           Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano, no berço mesmo, já começou. Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça.
Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. Ao ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus.  Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso.  Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de "solidão de não pertencer" começou a me invadir como heras num muro. 
Se meu desejo mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e não posso, é, por exemplo, que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertenço. Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética. É como ficar com um presente todo embrulhado em papel enfeitado de presente nas mãos - e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos. Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força - eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa. 
Quase consigo me visualizar no berço, quase consigo reproduzir em mim a vaga e, no entanto, premente sensação de precisar pertencer. Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida
No entanto, fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram por eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande esperança.  Mas eu, eu não me perdôo. Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer e curar minha mãe. Então, sim: eu teria pertencido a meu pai e a minha mãe. Eu nem podia confiar a alguém essa espécie de solidão de não pertencer porque, como desertor, eu tinha o segredo da fuga que por vergonha não podia ser conhecido. A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego o último gole de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho!