sábado, 22 de maio de 2010

21 de maio... Pac- Man de aniversário!!









Hoje, ao abrir o navegador da internet, deparei-me com algo que tocou muito meu coraçãozinho já meio cansado e roto (ou sequinho – como Mário de Sá Carneiro se dava ao luxo de dizer): O slogan do Google homenageava o trigésimo aniversário do clássico jogo Pac-Man. Sou assim, emotiva e apegada demais ao que ficou na memória como algo que ainda pode ser sentido! Veio-me tudo: as brigas com os primos, filhos de militares, que ganharam o Atari muito antes de nós e que o exibiam egoisticamente, negando compartilhar. Não sabíamos se nossos pais poderiam comprar e ficávamos muito tempo olhando para eles enquanto jogavam... Vejam só...Pac-Man! Lembro-me que foi mais ou menos como um conto de fadas com final feliz... A saga de Pac-Man e Atari! Meu pai conseguiu um emprego melhor como caminhoneiro e trouxe para nós o nosso primeiro Atari! Para crianças como nós, enclausuradas pelo amor e os cuidados excessivos de uma mãe que se exasperava para nos ver felizes em nossa pobreza, o tal aparelhinho rendeu muitos e muitos dias de alegria! Parecia que não tínhamos problemas, apenas jogávamos, marcávamos rodadas, estipulávamos batalhas por pontos ou “levels”! Eu era a única menina da casa e meus irmãos e seus amigos logo se acostumaram comigo ali, jogando junto. Eu adorava ser aquela bolinha amarela e gulosa que tinha de fugir por causa dos fantasminhas coloridos. 
Mas não foram apenas essas as lembranças! Toda uma retrospectiva, da infância até aqui, tomou minhas reflexões. Lembrei-me da moda dos “Mini-Chiclet’s” – sim! Moda! Aqueles mini chicletes coloridos não duravam em sabor e o pacotinho era tão mínimo que nossos pais preferiam comprar “Plock”. Mas nós insistíamos: afinal, a embalagem nos sorria! Logo veio o “Babalu” que ganhou na concorrência, pois possuía recheio. Eram dias maravilhosos. Quando nos entediávamos por não termos companhia, jogávamos Acquaplay, principalmente nas manhãs de domingo! Não durava, o tubinho d’água trincava ou quebrava nas nossas disputas pelo brinquedo! Foi a década de 80 e, dela, até os brinquedos se tornaram clichê! Talvez por isso essa nossa tendência, aos 28, 29 ou 30 anos... Essa nossa tendência ao pedantismo, às repetições, aos exageros. As cores desbotaram demais e os recheios já não nos encantam, sentimos falta! Mesmo com a internet, com o “X-BOX360” ou o “Nintendo Wii”... Sentimos falta da importância que essas coisas, hoje tão simples, tiveram para nós! 
O problema é a rapidez com que nossa percepção permite com que o tempo passe. Esquecemos de lembrar e nos perdemos em nossa história! Tantas belezas: os discos em vinil, com capas que eram verdadeiras obras de arte, algumas eram duplas, abriam para exibir uma obra maior ainda. Tínhamos que pegar cuidadosamente nas laterais do vinil para evitar arranhaduras. Nossos mimos. As revistas em quadrinhos eram colecionadas, número a número... Fazíamos o rastreamento das edições, esperávamos ansiosos a mais nova e, quando pegávamos nas mãos, o coração se alegrava. Acho que por ser irmã de dois meninos eu vivi com intensidade o que da década de setenta adentrou a de oitenta e seguiu um pouco além: os super heróis, os “Comandos em Ação”, os primeiros “Transformers”, os gibis, os games e as bandas de rock, punk, pop, pop rock, punk rock, os alternativos, o Heavy Metal, os pós punk, o grunge e os eteceteras- The Doors para os que se sentiam herméticos, The Smiths, U2, Deep Purple, Pixies, “Pink e Led” (que esses eram tratados já por redução, pra demonstrar intimidade), Nirvana para os “independentes” com jeans rasgadinhos nos joelhos, Simply Red para os que se achavam mais “moderninhos”, Ramones para os rebeldes e The Cure, para os góticos, isso citando apenas alguns. Eu estava ali, criança no meio desse turbilhão de gente cheia de vontade de sentir, de revolucionar. Não havia tanto medo de amar e se entregar como há hoje em dia, a violência era menos psicótica, pois as psicoses ainda eram motivo de medo e viravam bons roteiros para um cinema que não era oitenta por cento apenas diversão. O amor ou perda dele eram temáticas ainda possíveis de sensibilização geral.
Entramos na década de noventa com o sucesso do suco artificial em pó “Tang” e com a menininha do AllStar, com sua linda cabeleira cacheada dizendo "All Star, It’s all baby” e as últimas propagandas dos jeans Lee (a da moça que comprava a calça mesmo estando gordinha demais pra usar, mas guarda, perde peso e depois aparece lindamente vestida com a calça – lembram? - marcou-me muito, pois sempre fui gordinha demais p’ros jeans que queria usar).
Entrei na década de noventa com o Pac-Man, e nessa década eu cresci, escutei muito Michael Jackson e muita Madonna (porque ainda era inevitável), fui abandonando a Xuxa aos poucos e tragando do meu irmão mais velho e de seus amigos o que vivi na década de 80, mesmo sem ter consciência de que era tão bonito! O mundo começou a tomar forma e de repente fiquei adulta, tive o primeiro namorado “sério” e o filme Matrix foi sucesso de bilheteria! O mundo já havia mudando tanto que parecia não haver mais a infância. O rádio já não era cultura nos lares, onde os pais queriam ouvir as AM’s e os filhos as FM’s. Uma pena! O rádio na cozinha era companhia na hora de preparar um lanche.





Entrei na década de noventa com o Pac-Man, mas eu o perdi e, ainda antes da metade, não me recordava mais! E fiquei, como disse, adulta. Descobri o amor e descobri que ele dói, descobri que as músicas do The Cure não são para góticos apenas, mas para os que se entregam e sofrem e não se arrependem. Descobri Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu e consegui entender que também outros sofriam, ardiam e amavam enquanto eu jogava Pac-Man... E mais, que Clarice estava certa - “O adulto é sempre triste e solitário” – e vou ter a coragem de complementar – triste e solitário embora consiga sorrir sabe-se lá, ainda, o porquê. Costumo sempre olhar para minha infância como se ela não tivesse tido cor, pela solidão de minha mãe, pelas fraquezas de meu irmão menor e pelas maldades do maior... Mas hoje não, hoje o Google, por mais patético que isso possa parecer (e ser patética e pedante são dons dos quais não abro mão), fez com que eu me lembrasse que minha infância teve sim alguma cor... Alimento e, quem diria, recheio. Joguei Pac-Man com carinho e alegria neste dia e me senti novamente sendo aquela bolinha amarela e gulosa, além de perceber que continuo fugindo de fantasmas, como sempre.
Flávia Martins; Uruguaiana.






21 de maio de 2010.

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