terça-feira, 16 de março de 2010

Retângulo de sol

Era aquele retângulo de sol no chão... aquele espaço iluminado e quente que, na minha solidão, me permitia ser boa. A minha bondade era um momento solitário de calor. Sentada no chão, no duro inverno, eu gostava de deixar os pés descalços para que depois de estarem congelados já, eu os pudesse expor ao sol, naquela poça triangular de sol.

Mas foi num dia quente de verão que o retângulo de sol me foi ainda mais significativo. Era meu aniversário. Meu aniversário sempre fora para mim um dos momentos mais especiais do ano. Isso porque a casa sempre ficava cheia de crianças. Muitas delas talvez nem gostassem de mim ou não tivessem interesse em me conhecer, preferiam estabelecer um quadro comparativo entre seus brinquedos e os meus. Mas minha mãe sabia da minha solidão e que aquele volume me fazia muito bem, apesar de falso. Comemorava, sem saber que talvez viesse a comemorar sempre, como numa espécie de escolha prematura, um “faz de contas” - meus aniversários poderiam ser, assim, muito felizes. Mas naquele aniversário específico não houve nada. Nem haviam se lembrado. Acordei na esperança de ser, como acontecia unicamente nesses dias, a primeira a ser notada em casa e para quem iriam se dirigir todas as atenções... mas nada. Minha mãe lavava roupas e pediu que, depois do café, eu escovasse minhas sandálias. Sim, porque já era verão e eu tinha apenas aquelas sandálias para calçar, de tirinhas brancas de couro e fivela.

Olhei para o rosto de minha mãe procurando um lugar especial para mim... não encontrei nada a não ser a mesma expressão corriqueira de quem começa o dia já com marcas de cansaço. É por que nos meus aniversários a minha alegria servia de máscara para minha mãe, ela vestia-se de dona de casa feliz.

Peguei minhas sandálias e fui para o tanque onde lavávamos roupas e que ficava do lado de fora de casa. O sol cegou-me. Costumava apreciar o sol da manhã, sempre olhava para o modo como as folhas da laranjeira ficavam alegres com o sol e com aquele ventinho lerdo das manhãs de verão. Mas nesse dia havia um desconforto entre mim e o sol. Era intenso demais. Descortinava detalhes: a idade das tábuas, a sujeira da calçada, o azulado de uma blusa no varal, as manchas no velho tanque, os estragos de minhas sandálias. Coloquei-as para secar sobre alguns tijolos já limosos e quebradiços. Eram para ser a nova casa, mas nunca tivemos sorte com os sonhos, acabavam assim... Umedeciam esquecidos.

Umedeciam esquecidos... Como umedecia o dia de meu aniversário onde havia sombra. Sim, porque mesmo com o sol quente e a brisa de verão, algumas umidades se escondiam dentro das sombras. Esperei. Tomei o banho costumeiro e coloquei um vestido tipo marinheira e uns chinelinhos com florzinhas nas tirinhas, alguns já haviam se desprendido, e eu o adorava, era confortável como eu gostava de ser, como toda criança gosta de ser. Esperei. Coloquei minha cadeirinha de balanço, dessas de tirinhas de plástico, sob a sombra da laranjeira.

Passou o tempo. Montei com as bonecas uma provável vida doméstica possível, como a da minha mãe. Veio o almoço... E meu pai, com pacotes. A festa começaria, eu sentia que haveria uma festa, mas não como nas outras vezes. Meu pai estava preocupado e minha mãe estava cansada, agora eu via. Chamou-me e me vestiu. O cabelo separado trançado com fitas. Chegariam os convidados. Molecada que morava por perto, iam chegando, famintos, olhudos. Naquele aniversário eu apenas cresci mais um ano. Observei a molecada, uns doze. Minha amiga preferida deu-me um beijo e eu senti saudade de alguma coisa já. Retirei-me para meu quarto, a hora era a hora do sol, do retângulo de sol. Não vi que me chamavam para o parabéns. Meus pés estavam se aquecendo, já descalços, naquele espaço de calor. Ficou claro para mim que estaria só, mesmo que não quisesse, mas fugiria. Não importava mais... o meu presente foi meu momento de pés aquecidos no retângulo de sol. A vida tinha forma, eu não queria ficar como a umidade amarga do que meus olhos já tocavam, eu queria ser um pouco boa como sempre, queria as coisas inventadas. Percebi neste dia de verão que havia realmente ficado só, uma solidão diferente, senti como se tivesse sido pela primeira vez, e descobri que podia tentar ser boa... Apenas tentar, mesmo ali de dentro, do mínimo espaço de sol que não aquecia apenas, mas que quase queimava a pele de meus pés... E que eu suportaria desde então.

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