terça-feira, 30 de março de 2010

Delorean Music


Partida (título provisório)
composição: Temístocles Almeida

Não posso mais te segurar
Teu caminho já mudou
De que vale insistir
Tenho que me reerguer
Sei que hoje me senti
Dobrando de vagar
Procurando teu olhar
Sobras do que já passou
Mas já sei no que vai dar
Eu sozinho outra vez
Que feitiço você fez
Que levou a minha paz?

obs: já está prontinha...

quarta-feira, 17 de março de 2010

Delorean Music II

Lyrics: Temístocles Almeida

Não sei como começou
Nem porque aconteceu
De repente tinha um muro aqui
De silêncio entre você e eu

Que promessas não cumpri
Que carinhos te neguei
Em que maus momentos eu não tava alí
Tal você quando eu chamei

Que ferida provoquei
Que ainda não cicatrizou
ou não passa de expectativa desbotada
Sentimento que mudou

Por que hoje suas mãos são tão frias
e o teu beijo já me vem em saber
parece sempre uma despedida
De alguém que se foi
e o tempo não levou.

terça-feira, 16 de março de 2010

Yes, I've forgotten you just like I should

Ah! E o seu corpo era um triunfo; o seu corpo glorioso… o seu corpo bêbado de carne — aromático e lustral, evidente… salutar(A confissão de Lúcio, Mário de Sá Carneiro).
A boca movia-se falando alguma coisa lenta que não mais ouvia. Só via a boca muito fina e avermelhada, e a língua, volta e meia insinuando-se entre os lábios, até parar completamente.
Quando não era a boca era o ventre. Pêlos no ventre. Enrolados, pequenos caracóis. Uma mão descia pelo abdômen, onde outros pelos se exibiam e iam escasseando até ali, naquele risco, cauda de algum cometa. A mão descia despreocupada até o botão da calça jeans, desmaiando logo na curva do quadril. Uma mão muito branca, as pontas dos dedos muito finas e, ainda assim, uma mão enorme que, despreocupada, percorria manso aquele espaço.
A mão descansando sobre o sofá, os dedos frouxos. Os braços. Os braços em desacordo. Um braço a descansar desconfortavelmente ao lado do corpo quase estendido. O outro, a ponta do cotovelo apontando para cima, o limite antes do pulso, cabelos escondendo a extremidade. Cabelos tocando o pulso. Cabelo insistente e abundante, tocando o queixo, disputando com os minúsculos e já proeminentes pêlos que começam a nascer, sinal de algum descuido ou esquecimento. O queixo revive por que a boca novamente, a boca se abre um pouco, fecha-se e comprime-se para ajudar a engolir a saliva do sono. É possível saber o percurso da saliva ao olhar para o pescoço. Um close ajudaria. O pescoço muito perto; movimento de saliva descendo. Esse processo iria fazer com que o percurso voltasse ao seu início: pescoço, abdômen, ventre, quadril.
Seria preciso fazer cortes, assim: a mão de dedos frouxos sobre o sofá frouxamente procura uma entrada pelo caminho do cometa, a calça jeans a esconder os dedos, a mão se aprofundando para brincar dentro do sono. Corte / close: a testa movimenta-se, os olhos já fechados comprimem um pouco, para logo suavizarem, os cabelos como que sentem. Corte/close: a boca. A boca entreaberta permitindo que as pontas brancas dos dentes ficassem, por um momento, visíveis. Respiração, o ar entra, o ar sai, gemido quase surdo, a boca fecha e comprime, a língua sente os lábios que ficam úmidos.... prazer... a língua se esconde. As narinas imperceptivelmente dilatam-se, mais ar saindo. Leve Afastamento: a mão que o cabelo escondia, revela-se. Os dedos engolem os cabelos, a mão repousa sobre a cabeça, os dedos frouxos, frouxas carícias nos redemoinhos. A mão engolida pela calça jeans aos poucos começa a retornar. Os dedos revelam-se. As pontas dos dedos fazem carícia no ventre.
Lado oposto: Uma perna descuidada estende-se, bate no copo vazio. Leve som de pequena queda. Close: o copo roça o chão num instante mínimo. Barulhinho de vidro roçando o chão. O copo pára. Close: olhos. Os olhos entreabrem. Fecham. Abrem-se por completo. Azul e cinza, os olhos. Os olhos devem estar olhando para quem olha, em silêncio. Os olhos em silêncio, abrigo sobre montanha ao longe, solitário.
Abro os olhos. A música continua, a voz muito grave: But I get along without you very well, of course I do… e isso parece alguma dor _ Yes, I forgotten you just like I should_ except when I hear your name_ or someone laughs that is the same … e continua…continuo…WHAT – A – FULL – AM – I ? …
No sofá à frente não repousa prazer ou desejo. A janela atrás revela um céu azul, cinza, olhando pra quem olha, em silêncio.

Delorean Music

Inspiração: Temístocles Almeida
Lyrics: Áureo Goulart


Venho através dessa canção
Resgatar uma emoção perdida
Que me persegue
E faz com que eu prossiga
e ande sem parar

Venho através dessa canção
Dizer que o tempo é duro
mas não envelhece o coração
e que por dentro sou ainda
mais menino

O tempo não vai parar
O tempo
é aquela balada antiga
que fizemos no banco da escola
E que a gente não dava bola
E as meninas pediam a toda hora
Por que era uma canção
de amor...

Retângulo de sol

Era aquele retângulo de sol no chão... aquele espaço iluminado e quente que, na minha solidão, me permitia ser boa. A minha bondade era um momento solitário de calor. Sentada no chão, no duro inverno, eu gostava de deixar os pés descalços para que depois de estarem congelados já, eu os pudesse expor ao sol, naquela poça triangular de sol.

Mas foi num dia quente de verão que o retângulo de sol me foi ainda mais significativo. Era meu aniversário. Meu aniversário sempre fora para mim um dos momentos mais especiais do ano. Isso porque a casa sempre ficava cheia de crianças. Muitas delas talvez nem gostassem de mim ou não tivessem interesse em me conhecer, preferiam estabelecer um quadro comparativo entre seus brinquedos e os meus. Mas minha mãe sabia da minha solidão e que aquele volume me fazia muito bem, apesar de falso. Comemorava, sem saber que talvez viesse a comemorar sempre, como numa espécie de escolha prematura, um “faz de contas” - meus aniversários poderiam ser, assim, muito felizes. Mas naquele aniversário específico não houve nada. Nem haviam se lembrado. Acordei na esperança de ser, como acontecia unicamente nesses dias, a primeira a ser notada em casa e para quem iriam se dirigir todas as atenções... mas nada. Minha mãe lavava roupas e pediu que, depois do café, eu escovasse minhas sandálias. Sim, porque já era verão e eu tinha apenas aquelas sandálias para calçar, de tirinhas brancas de couro e fivela.

Olhei para o rosto de minha mãe procurando um lugar especial para mim... não encontrei nada a não ser a mesma expressão corriqueira de quem começa o dia já com marcas de cansaço. É por que nos meus aniversários a minha alegria servia de máscara para minha mãe, ela vestia-se de dona de casa feliz.

Peguei minhas sandálias e fui para o tanque onde lavávamos roupas e que ficava do lado de fora de casa. O sol cegou-me. Costumava apreciar o sol da manhã, sempre olhava para o modo como as folhas da laranjeira ficavam alegres com o sol e com aquele ventinho lerdo das manhãs de verão. Mas nesse dia havia um desconforto entre mim e o sol. Era intenso demais. Descortinava detalhes: a idade das tábuas, a sujeira da calçada, o azulado de uma blusa no varal, as manchas no velho tanque, os estragos de minhas sandálias. Coloquei-as para secar sobre alguns tijolos já limosos e quebradiços. Eram para ser a nova casa, mas nunca tivemos sorte com os sonhos, acabavam assim... Umedeciam esquecidos.

Umedeciam esquecidos... Como umedecia o dia de meu aniversário onde havia sombra. Sim, porque mesmo com o sol quente e a brisa de verão, algumas umidades se escondiam dentro das sombras. Esperei. Tomei o banho costumeiro e coloquei um vestido tipo marinheira e uns chinelinhos com florzinhas nas tirinhas, alguns já haviam se desprendido, e eu o adorava, era confortável como eu gostava de ser, como toda criança gosta de ser. Esperei. Coloquei minha cadeirinha de balanço, dessas de tirinhas de plástico, sob a sombra da laranjeira.

Passou o tempo. Montei com as bonecas uma provável vida doméstica possível, como a da minha mãe. Veio o almoço... E meu pai, com pacotes. A festa começaria, eu sentia que haveria uma festa, mas não como nas outras vezes. Meu pai estava preocupado e minha mãe estava cansada, agora eu via. Chamou-me e me vestiu. O cabelo separado trançado com fitas. Chegariam os convidados. Molecada que morava por perto, iam chegando, famintos, olhudos. Naquele aniversário eu apenas cresci mais um ano. Observei a molecada, uns doze. Minha amiga preferida deu-me um beijo e eu senti saudade de alguma coisa já. Retirei-me para meu quarto, a hora era a hora do sol, do retângulo de sol. Não vi que me chamavam para o parabéns. Meus pés estavam se aquecendo, já descalços, naquele espaço de calor. Ficou claro para mim que estaria só, mesmo que não quisesse, mas fugiria. Não importava mais... o meu presente foi meu momento de pés aquecidos no retângulo de sol. A vida tinha forma, eu não queria ficar como a umidade amarga do que meus olhos já tocavam, eu queria ser um pouco boa como sempre, queria as coisas inventadas. Percebi neste dia de verão que havia realmente ficado só, uma solidão diferente, senti como se tivesse sido pela primeira vez, e descobri que podia tentar ser boa... Apenas tentar, mesmo ali de dentro, do mínimo espaço de sol que não aquecia apenas, mas que quase queimava a pele de meus pés... E que eu suportaria desde então.