quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Necessidade

Construir.
Stay, de Ken Wong, retirado do link abaixo:
http://www.kenart.net/portfolio/moonlight.htm
Isso: construir, montar, criar. Claro, com as entrelinhas. Construir sem desconstruir é impossível. Só assim o corpo muda. Tem gente que não muda. Por opção continuam sendo o que acreditam ser. Só esmagando uma barata, algo se cria. Não é um processo simples. Nada simples. Só com o sangue branco de barata se espalhando pelo chão a gente muda. O coração palpita, o corpo treme, por que está em metamorfose. Há apreensão, há medo.
O corpo na sacada fala sem se mexer. Precisa de algo. A barata mexendo as pernas o faz perceber. O calor maçante, o ar ofegante. Sim, a barata é o que resta. Ninguém ao redor, ninguém em nenhuma direção. Nenhuma força direcionando em uma direção específica. Estou sozinho. Sozinho fisicamente agora também. Essência e corpo. Sozinhos por um tempo. Isso preenche. Preenche o quarto, o hotel, a cidade e o campo no horizonte.
Paisagem de vegetação rala ao longe. Seca. Meu corpo pode secar agora. Sem mais nada. Músculos podem enrijecer, ir à poeira. Estou indo, estou chegando.
Quando chega a beira. A beira do que podia ter acabado, na beira do tempo que passou, o corpo congela. Os pés pisam em alguns galhos. Lágrimas caem ao chão. A dúvida brota verde. Esperamos ela morrer, ela não morre sozinha, esmago com os pés, brotos verdes molhados de lágrima.
Se eu cair, alguém irá me segurar? Não... estou sozinho... vou poder cair. Me deixar cair é importante. Quando se ama alguém, devemos deixá-lo cair. Então caio. O ar passa por mim. As lágrimas voam junto com o vento, as cinzas do corpo, o vento da queda leva tudo, sentimentos também. Fico vazio. Casco de barata. Seco de morte. Caído na cama.
Logo, pousa uma esperança no vidro sujo. Pernas longas, verdes, antenas vivas. Está lá. Fora do quarto. Os olhos veem, olham o mundo atrás dela e ela voa.



md.

sábado, 27 de julho de 2013

Literatura para os pobres, loucos e coloridos


Descobri homens afogados, semidevorados pela pedra e, nos rochedos de cima, outros homens que lutavam para afundá-los.” Antonin Artaud. Escritos de um louco.
Há em Uruguaiana, cidade fronteira com a Argentina, tomada de campos duros e vento seco, um número considerável de escritores. Ao menos assim dizem os moradores do lugar. O povo desta cidade, tão comum e calma quanto Oran, conhece seus escritores, pois há nesta localidade um costume bem marcante: publicar textos de alguns desses escritores em jornais locais, já que a mídia impressa ainda é muito útil e popular em Uruguaiana, por motivos óbvios já descritos (campos e ventos, etc).
Foi de modo acidental que acabei cruzando com um desses jornais, com um desses escritores e, por conseguinte, com um desses textos que a imprensa local, muito ética e preocupada com a qualidade da leitura dos cidadãos, costuma publicar. O que eu queria mesmo era comprar cigarros, os quais fumo por desavergonhada angústia tangente de morte, com a qual me nego a lutar, por fraqueza humana e nada mais. Acontecia de estar acompanhado de um grande amigo que, ao apontar para um dos jornais populares na estante da loja de conveniências, citou-me o título de um texto que havia lido naquele calhamaço confuso de impressão, cuja capa mais parecia uma casa burguesa ao estilo de Balzac. Como me encontro pertencente à ordem cidadã da mesma cidade, não pude deixar de ficar curioso e pedi a meu amigo que comprasse o jornal, já que dinheiro também não tenho, sendo que meu companheiro pagou também pelos meus cigarros: dividas que acumulo e que são impagáveis, pois são empréstimos de carinho e humanidade inquestionáveis. Foram minhas pobrezas, a humana e a econômica, que me obrigaram a ler o texto que falava exatamente disto: a pobreza.
Tratava-se de uma crônica sobre as cores dos pobres. Vale lembrarmos que as crônicas são obras literárias, cheias do charme próprio que o hibridismo contemporâneo vestiu glamourosamente. Por ser um tipo de texto que bem cabe aos jornais, e por isso também é de toda gente, a crônica carrega consigo, enquanto texto, um dever de obediência ao humano e à vida que, caso se perca, pode gerar sérios problemas para quem lê. Problemas situados onde os agenciamentos entre a subjetividade, o real, o ficcional, significante e significado se tornam impossibilitados, e isso é retirar de quem lê a sua dignidade.
Nesta crônica em especial, um narrador  em primeira pessoa conta uma viagem que fez, na qual teve de pegar um ônibus e, por conta disso, pode observar as paisagens com precisão, coisa que não poderia fazer de dentro de um avião. Fica claro que o narrador considera-se burguês, sentindo-se, no contexto específico de escrita, na necessidade de frisar ter feito uma viagem de avião, coisa muito incomum entre os pobres do Brasil, ainda mais incomum para os de Uruguaiana. Pensamos, eu e meu amigo, que talvez o narrador dissesse isso para conferir um certo poder de classe sobre si mesmo, o que em Uruguaiana parece valer muito. O texto se escorre dando a impressão de ser uma epifania vivida por uma princesa que, do alto de sua torre, sai a planar sobre as favelas e cortiços, observando assim a plebe, as mulheres a estender roupa, casais a brigar na rua, as casas e roupas conseguidas a muito custo, sem o luxo das escolhas, tal qual insiste a ditadura dos modismos. Meu estômago sentiu um mal-estar, mais por ser posto a prova, quando na crônica (texto que deve ser literatura), leio uma opinião: a de que há mais poesia na pobreza do que na riqueza, já que os pobres tem o colorido das roupas, as doenças que os unem, assim como suas dores e seus medos.
Compreensível colocação. Explica-se. Uruguaiana é uma cidade como qualquer outra, mas cabe dizer que todo aquele que quiser conhecê-la, deve obrigatoriamente visitar o cemitério da cidade. O cemitério de Uruguaiana mostra exatamente o que diz a crônica que li com meu amigo. Ao pisarmos este terreno cheio de histórias caladas, somos engolidos por enormes “casas” que se pretendem aristocráticas. Um amontoado de dinheiro gasto para a permanência dos nomes dos poderosos. Palacetes para os corpos que se acreditavam mais valiosos em vida, até por que “a riqueza não tem cheiro de terra”, como estava escrito no texto que li com meu amigo. Talvez por isso precise se vestir bem e se proteger em paredes enfeitadas de arabescos insossos e cores cariadas, mesmo depois da morte. Logo atrás deste “bairro nobre”, o cemitério traz as lápides dos pobres. Túmulos coloridos, onde as flores de plástico reforçam os tons de grito, a existirem mesmo na morte de forma incomodativa, lembrando sempre aos ditos “ricos” que a pobreza é colorida. E é. Colorida e pesada como um elefante no bolso. Nada contra os ricos, claro, todo pobre queria ser um. Assim não precisariam gritar tanto sem ao menos serem ouvidos, podendo de igual forma oprimir outros pobres, já que parece que este ciclo não terá um fim.
Acendi um cigarro após ter lido todo o texto, e me pus a pensar nos pobres e nas cores. Não me incomoda dizer que a pobreza é colorida. Foi a conclusão a que cheguei antes de sentir fome e decidir jantar uma colorida sopa, bem quente e nutritiva, comida de pobre. Acho que me abalou uma certa tristeza por esta escrita que foi publicada assim no jornal da cidade. Talvez onde este narrador diz que não desejaria viver como os pobres, mas que os admira. Talvez aí a grande dor. Uma tristeza por não ser uma piada de mau gosto. Pensei que talvez a literatura esteja morrendo e não importa para mim o fato de eu não ser um escritor, já que não faria diferença em um mundo sem homens, sem mulheres, sem bicho.
Por que não ser pobre, afinal? Sair do território habitado pelo ilusório, ser levado pelo cego mascando chicletes como fez Ana em um conto de Clarice, e o fez com tanto Amor que era quase tudo. Bem, Clarice Lispector já havia dito: "o amor é antes a miséria". Foi a falta de amor desta crônica que me matou por um momento. Todo um escrito publicado e embalado, para ser lido e aceito como verdade subjetiva pelos leitores deste sítio onde moramos eu e outros cidadãos, em sua maioria, pobres.
Pensei nisso tudo após ter lido esta crônica no jornal, e me vi a morrer nas mãos, depois nos ombros mansos, depois no peito duro. Desfaleceu-se a musculatura de meu corpo. Sentei para comer em silêncio, em um banco do lado de fora de minha toca de rato. As palavras do texto a me inchar a cabeça. “Despudoradamente”, sim, sentei para comer minha colorida sopa sem pudor por ser pobre e exibir o meu jantar. Enquanto eu comia, vi crianças brincando na rua gelada, fazendo barulho. Talvez a pobreza não seja apenas colorida, talvez ela seja um rizoma incomodo, ainda mais quando produz e quando cria coisas para o mundo. Foi quando percebi que a crônica que li não pode ser literatura. A literatura não tem a ver com um mundo particular (papai-mamãe): príncipes e princesas voadores, a salvar o mundo da miséria por dizer que ela é bela. Para escrever é preciso saber que não existe um enunciado individual. Este texto, publicado com descuido perigoso, não conectou nada, não conjugou, não continuará, não é devir. É ser estratificado que não flui com o mundo.
Ao final, a crônica lida foi útil à lucidez. A literatura deve valer a pena e pode ser tentada, causada, até menos pelos pobres. Terminei de comer e decidi escrever este texto cheio de clichês que tenta mostrar que tenho alguma leitura. E tenho. Os ditos “ricos”, ou os que assim se denominam, estufando o peito poderoso, cometeram um erro grave: permitiram que eu lesse. E tenho direito ao clichê, afinal, sou pobre. Tiraram-me do afogamento e fiquei ali, em meio à peste. A peste que é também cheia de cores, a cor da ferida e a cor do sangue, coisa de pobre. E é bom que tenham cuidado. Agora sou um doido, tenho os olhos coloridos...
Por O. Z.

domingo, 21 de abril de 2013

The Cure - Latin American Tour 2013

FOTO DE DIÓBER LUCAS - FONTE: FACEBOOK. LINK: DIÓBER LUCAS. facebook


EL CONCIERTO DE LA CURA...

Resolvi escrever este texto hoje, por ser 21 de abril, aniversário de Robert Smith. Com certeza este senhor está de parabéns, pois seu trabalho como artista não é coisa pouca, como pude sentir ao ver a performance ao vivo do The Cure. Começa assim: de repente um arranjo musical, que de extraordinário enquanto técnica ou virtuosidade, não parece ter muita coisa, mas que como um todo, em suas linhas, abre o conjunto música/poesia que se propaga: desce dos céus ao coração de quem ouve... Estrelas se acendem em uma tela escura, como se significassem cada nota desta canção-poesia, que é simples, é uma Plainsong - canção óbvia, como se assim devesse ser o amor em sua complexidade - Expõe-se um diálogo, narrativa poética que só o timbre de Robert Smith consegue alcançar: um homem e uma mulher falam de seu amor, com a maturidade de um amor que sabe ser o fim de tudo, o começo de tudo, o qual sabe compreender a dor do outro e ser também a miséria do outro, mas que reconhece também o sublime em um simples sorriso.  Sorriso que aplaca todas as dores, o escuro de um dia de chuva, o silêncio de morte, porque este sorrir eleva o ser amado ao topo do mundo, que é também um abismo.  Foi assim que o Cure abriu o show em Buenos Aires. Para quem entende um pouquinho só do idioma, uma única música de Robert Smith pode conter o tanto que se pode sentir, ou mais. Sei que existe um livro sobre o The Cure, escrito em francês, que tem como título algo do tipo “Órfãos do Romantismo”.  Talvez o sejam... Mas até então, é uma obra bastante contemporânea, pois a forma como o amor entrecruza o simbólico, o imaginário e o real nas músicas do Cure, está muito mais para os intervalos de vazio, para o todo e para a diferença absoluta na relação entre os seres, expondo assim as barreiras que precisam ser transpostas.  Logo, as músicas vão efetuando seu efeito enquanto obras para uma coletividade. Um mapa de subjetividades que se constrói através de fluxos de desejo, que rompe com as estruturas através de ambiguidades latentes, em músicas como Inbetween Days e Push, ou muitas outras.  Não há como não se sentir dentro da música, ou o inverso... E vamos da criança ao animal humano, do eu ao todo, é nesse continnum de intensidades e de rupturas que se dá o evento musical do Cure.

Eu pude sentir a força dessa obra e sempre serei grata por ter ido ao show do The Cure – el concierto de La Cura – como dizem alguns fãs hispânicos. E dizem bem, é sempre bom lembrar o nome da banda por seu propósito: a cura. Quando Robert Smith cantou Want – “no tanto que eu quero/ eu sei que bem lá no fundo/ Eu nunca terei mais esperança ou mais tempo”-, meu coração se abriu numa compreensão que era de todos: a do nosso espaço não cultivado, onde queremos, desejamos. Ali, cantando junto, pude sentir algo vivo, mas para o qual eu não teria um nome. Liberdade? Talvez. Ou consciência de não a ter? Não sei, não saberia explicar. Sei que a banda, e principalmente, Robert Smith, por sua obra, são muito importantes para mim. São como erva daninha que impõe seu crescimento transformador, num mundo de plantações inúteis e versos de um encantamento oco, que nada deixam transbordar.

Além disso, ainda há a graciosidade do artista: a banda tocou com perfeição. Robert Smith cantou com perfeição. Este adjetivo era o único possível. Houve momentos em que era audível, aqui e alí, as pessoas dizendo “perfeito”, “perfecto”. Lembro-me que o público delirou com Fight, pela energia com que foi tocada pela banda, pela voz de Robert Smith e sua força interpretativa, que expõe nessa música a necessidade de lutar contra aquilo que nos confina e nos aprisiona, tirando-nos a força... A agitação da coletividade, nesse momento, gerou um grande barulho, um caos generalizado de alegria e de libertação. O barulho era imenso e, quando a música acabou, Robert largou um pouco guitarra, logo, voltou e disse: “this will shut you up!” – com esse gracejo, fez surgir Dressing Up. Música de uma expressão longilínea, amorfa, quase impossível de cantar junto, onde o vocal do Sr. Smith se derrama como corpo preguiçoso, que não quer levantar da cama, mas que se veste para “beijar”, “para ser isso tudo”, “para dançar toda semana” e depois, volta novamente para a cama, para o corpo de êxtase que o aguarda. Essa graciosidade, essa beleza, é o que há de melhor na obra desta banda, até porque, ninguém imagina que uma banda de rock, ou seja lá como o definem (eu prefiro considerar como híbrida) possua tais traços estéticos. Para dar continuidade a essa beleza, seguiu-se com a “jazzy” The Lovecats. A emoção era tanta, que o público transbordava em carinho, pelo menos é o que eu pude notar no rosto dos que estavam ao meu redor.

E para encerrar: o êxtase! Lágrimas não faltaram ao meu redor, confesso que eu também contribuí. Algumas eram de nostalgia, outras de compreensão, outras de comunhão, outras eram um complexo de todas as emoções possíveis. Durante mais de três horas sem beber, sem comer, em pé, sentindo frio e calor, sendo esmagada, empurrada, erguida por meu amigo, eu nada sentia que me incomodasse, que me tirasse daquele sentimento quase primitivo de pertencimento, de estar cantando também a mim mesma.  A entrega era total e posso dizer que saí extasiada, dilacerada, as pernas bambas, um tremor manso no corpo, o coração em paz. O mundo havia desaparecido, para ressurgir sem que pudesse em nada abalar minha gostosa exaustão. Depois de voltar para o hostel onde estávamos hospedados, de conversarmos um pouco, o sono me veio calmo e pleno, cheio de coisas boas. Acredito que muitos dos que foram, também se sentiram completos ao final do show, e que, como eu, não esquecerão esse mágico momento. 

Por sally Seton.


Neste 21 de abril - Feliz aniversário Robert Smith!



SET LIST - BUENOS AIRES:
 Plainsong, Pictures of You, Lullaby, High, The End of the World, Lovesong, Push, Inbetween Days, Just Like Heaven, From the Edge of the Deep Green Sea, Sleep When I'm Dead, Play For Today, A Forest, Primary, Bananafishbones, Charlotte Sometimes, The Walk, Mint Car, Friday I'm In Love, Doing the Unstuck, Trust, Want, Fascination Street, Hungry Ghost, Wrong Number, One Hundred Years, Disintegration

1st encore: The Kiss, If Only Tonight We Could Sleep, Fight

2nd encore: Dressing Up, The Lovecats, The Caterpillar, Close To Me, Hot Hot Hot, Let's Go To Bed, Why Can't I Be You?, Boys Don't Cry, 10:15 Saturday Night, Killing An Arab.

PARA CURTIR A MÚSICA DE ABERTURA: PLAINSONG
A QUALIDADE NESTE VÍDEO ESTÁ ÓTIMA, MAS PARA QUEM QUISER VER IMAGENS DO SHOW A QUE ME REFIRO,  BASTA PROCURAR PLAINSONG LIVE - BUENOS AIRES 2013 NO YOUTUBE...

terça-feira, 5 de março de 2013

Não sei como este texto aconteceu, mas eis que...


                    Pierrôs e Malabares


Este é um texto sobre felicidade, portanto, um texto sobre moda. Sejamos felizes! Se acaso sentir um vazio no peito, não importa, caminhe rumo ao sol e encontre sua luz interior, você brilhará e sua vida será repleta de alegrias, como a de todo mundo! Sim! Por que todo mundo é feliz, principalmente nas redes sociais. Você pode até ficar triste e se expor no Facebook, mas saiba que isto não está com nada... Se você sentir algo dentro de peito, talvez um aperto, solidão, fuja rapidinho, esconda-se, pois a vida é dos alegres e fortes! Dos vencedores! Dê um jeito, leia autoajuda, invente algo: cada um com seu “soma” (o remedinho fictício de Aldous Huxley serviria muito bem hoje em dia, seria o mais vendido nas farmácias).
O caso é que esta onda fashion de felicidade é irritante e bastante prejudicial. Muitas vezes está imbuída de falsa lógica, levando muitos, até mesmo, ao sentimento de culpa por não estarem felizes, alegres e radiantes. Essa atitude de obrigação diante de uma subjetividade que tenta ser explicada desde antes de Aristóteles, talvez, e que ainda não conseguimos conceber o que seja em poucos significantes, acaba se tornando apenas mais uma peça, um pino a mais na cansativa engrenagem, a que somos obrigados a manter girando em nosso dia-a-dia.
Nossa vida é assim, acordar cedo, ir para o trabalho, intervalo para alimentar-se, limpar-se, trabalho, comer, limpar-se, dormir, comer, trabalho... Assim giram as manivelas da existência humana. Nesse compasso quase ininterrupto (pois há os finais de semana), todo homem ou mulher que reflete, hora ou outra, irá parar e perguntar para si: qual a razão de tudo isso? – Quem já leu “O estrangeiro”, de Albert Camus, conhece este questionamento. Momento de pausa. A máquina estanque pode ser contemplada. Com isso, é possível perceber os que continuam fazendo-a funcionar, os que também vão parando por um breve instante de consciência e os que se negam a fazer questionamentos. Isso porque muitos se dizem felizes o tempo todo, por que assim indica o merchandising que os cerca.  É impossível não se sentir um estrangeiro no mundo nessa situação, é impossível não nos sentirmos sós.
Mas nossos momentos de reflexão são importantes. Eles nos permitem que sejamos verdadeiros malabaristas. Contamos com os outros, queremos que por um momento eles possam parar e dividir conosco as ansiedades, os medos, os vazios, as paixões, os amores, os fluxos de intensidades de nossas existências, todas únicas. Nessa troca, também para os outros, somos um outro, repleto de cosmos, de pulsação. É impossível estarmos felizes o tempo todo, sendo que apaziguarmos nosso coração para com o que sentimos é a melhor forma de caminharmos.  A dor pode ser, também, um privilégio. Através das adversidades e dos sofrimentos, tornamo-nos mais humildes e mais compreensivos, paramos para contemplar a vida e pensar sobre ela. Nos momentos de dificuldades, vemos o quanto precisamos uns dos outros. Isto é o que importa. Tentarmos estar juntos, com lágrimas nos olhos, ou não, é nossa grande batalha cotidiana, a mais importante.
Não há como saber o que é realmente a felicidade. Os momentos de alegria parecem não durar tanto quanto esperávamos, mas vale saber que podemos contar com uma beleza fundamental de nossa natureza humana: por baixo das máscaras de cada um de nós, somos todos pierrôs, eternos aprendizes das alegrias e tristezas.  Estamos repletos de peripécias malabares para burlar os mecanismos de produção de emoção em série, como querem alguns escritores de autoajuda, que se dizem portadores da felicidade total, como querem os propagandistas de uma felicidade artificializada e vazia...
Todo clown**  já derramou uma lágrima, que ao invés de sufocar o riso, concedeu-lhe razão eterna. Assim, podemos deixar de lado essa ânsia de nos escondermos ou “enfeitarmos” nossos momentos “não felizes”.  Caminhar rumo ao sol é importante, mas não é preciso negar a paixão que nos joga na tempestade...
Por Sally Seton.

**palhaço.
Da ilustração: imagem com direitos autorais.

O texto veio p'ro blog com atraso, mas veio...


Volta às aulas: professores &  Livros


Lembro-me muito bem dos meus tempos de escola, especialmente da primeira Feira do Livro da qual participei. Eu estava na então chamada segunda série do ensino primário e a professora nos avisou da Feira do Livro da Escola. A emoção da professora nos contagiou, até porque, ela nos contava histórias todas as semanas, e também as encenava para nós, com figurino e tudo! O dia da Feira não nos desapontou, e ainda tivemos a presença de escritores, um deles, um poeta que escrevia, também, para crianças, autografou meu caderno e deu-me um de seus livros. Beijou as crianças e cantou para elas. Nunca senti tão grande fascínio como o que aquele homem despertou em mim, falando-nos sobre a vida como se fosse outra coisa, como se a escola fosse nossa nave para fazer do mundo o que quiséssemos. Eu nem mesmo compreendia todas as palavras que ele utilizava e, quanto mais estranhas me pareciam, mais assaltavam minha curiosidade. A professora estava preparada, percebeu nossas dúvidas e fez uma lista das palavras que não conhecíamos, e lá, na segunda série, usamos pela primeira vez um dicionário. Foi algo solene! Descobrimos que os sons das letras podiam ser escritos, como se a língua guardasse segredos para que nós desvendássemos. Os grupos (sim, sempre trabalhávamos em grupos) estavam concentradíssimos, e burlávamos a professora, indo atrás de palavras que não estavam na lista, afinal, aquele livro de palavras estáticas nos enchia de ideias, tal era nossa imaginação! A culpa era toda dela e, naquele ano, lemos muito, encenamos e escrevemos nossa pequena obra literária, falando sobre a escola e sobre nossos sonhos.
Esta lembrança me sacudiu novamente quando ouvi de uma amiga há pouco tempo que alguém reclamou de seus textos, dizendo que eram muito bons, mas que podiam ser “curtinhos”, por que ninguém lê textos muito longos. Tenho de repetir: “ninguém lê textos muito longos”. Ninguém? – Não sei dizer quão inexplicável foi o turbilhão de sentimentos dentro de mim, entre raiva, indignação, perplexidade, angústia e decepção, enfim... – Mas a primeira coisa que pensei foi na escola. Acredito que aprendemos a amar a compreensão das coisas na escola, com nossos colegas e professores. Aquela professora que eu tive era singular e fez toda diferença. Hoje, vejo nas escolas professores que não leem. Não faltam desculpas: não há tempo, não sou professor de literatura, minha disciplina nada tem a ver com isso (para começar, o pronome “meu” e o substantivo “disciplina” não deveriam mais ser usados por professores), acho perda de tempo, e aí vai... – Mas chego à conclusão de que um professor que não tem como prática a leitura, especialmente a literária, vai ter dificuldades em despertar nos seus alunos a capacidade criativa, o gosto por aprender o mundo, seja deduzindo e, até, calculando, na busca de solução para problemas vividos a cada instante. Isto porque ler é fundamental para que possamos nos relacionar uns com os outros, com o mundo e com aquilo que nos preenche e faz de nós o que somos, ou nos possibilita estarmos no mundo do jeito que estamos. Ler permite a mudança, a transformação humana em todas as instâncias de nosso ser/estar.
Quero deixar esse pequeno pedido aos professores neste momento de volta às aulas: por favor, não permitam mais que pessoas digam que ler é algo do passado, ou que ninguém lê textos “longos” (não sei bem o que isso quer dizer, afinal). Nossa história, nossa ciência, nossa vida, nossa cultura, a cultura do mundo e de todas as pessoas em todos os períodos da humanidade estão nos livros. Um ser humano sem leitura não tem consciência nem de si, nem dos outros, não tem história, e como consequência, não tem passado nem futuro. E posso afirmar, sinto-me orgulhosa de ter na história de minha vida a Feira do Livro da segunda série e a professora, que se chama (ainda deve estar dando aulas, talvez) Rosa, “tão linda e graciosa/ estátua majestosa do amor”. O amor de uma Rosa pelo que nos é fundamental, mostrou para mim e para meus colegas que o mundo é um mistério infinito a ser desvendado a cada segundo, e que isso é o que faz a vida valer a pena.
Por Sally Seton.
Dedico este texto a um professor paulista que me inspira e que luta por esta paixão, que é leitura e a escrita: Rodrigo Siríaco. Para conhecer seu trabalho, acesse: http://efeito-colateral.blogspot.com.br/
(você pode também digitar Efeito-colateral no Google, não será difícil encontrar).